Quatro décadas depois da estreia, Cheers segue como referência quando o assunto é sitcom. Criada pelos irmãos Glen e Les Charles com James Burrows na direção, a série estrelada por Ted Danson construiu personagens inesquecíveis, roteiros afiados e momentos que, até hoje, dão aula de timing cômico.
Abaixo, relembramos dez episódios que provam por que o bar de Boston continua ditando regras de humor, mesmo competindo com títulos contemporâneos de alto orçamento.
Do piloto ao adeus: a seleção de capítulos que definem Cheers
Cada item da lista evidencia o trabalho do elenco, a mão segura de Burrows na direção e a escrita perspicaz da sala de roteiristas. Mesmo temas delicados — como alcoolismo e relações tóxicas — ganharam tratamento equilibrado sem perder a leveza da comédia.
Give Me a Ring Sometime
O piloto de 1982 já expõe os pontos fortes da série: personagens apresentados em poucos minutos, ritmo ágil e piadas que envelheceram bem. Ted Danson (Sam) e Shelley Long (Diane) exibem química imediata, enquanto Burrows usa planos fechados para transformar o bar quase num personagem.
O roteiro dos irmãos Charles deixa claro o “lugar onde todo mundo conhece seu nome”, conceito que mais tarde inspiraria produções focadas em “famílias escolhidas”.
A estreia, tida como fracasso de audiência na época, hoje é estudo de caso sobre como abrir uma sitcom com coração e inteligência sem recorrer a exposição excessiva.
What Is Cliff Clavin?
John Ratzenberger brilha como o carteiro sabe-tudo que encara o Jeopardy!. A atuação exagerada combina com o tom de episódio “high concept”, mas nunca descamba para a caricatura vazia.
Burrows mantém o ritmo com cortes rápidos entre o estúdio de TV e o bar, enquanto o texto satiriza a autoconfiança de Cliff sem soar cruel. Até Alex Trebek participa, reforçando o diálogo entre ficção e cultura pop.
O capítulo ainda insere um divertido B-plot em que Sam paga pelo passado de mulherengo, prova de que Cheers sabia equilibrar múltiplas tramas sem perder foco.
Dinner at Eight-ish
Encontro desastroso na casa de Frasier (Kelsey Grammer) revela porque episódios “garrafa” podem ser ouro puro. Com um único cenário, o elenco depende de timing e expressão corporal para manter a graça.
Bebe Neuwirth (Lilith) domina cada pausa dramática, enquanto o roteiro empilha mal-entendidos à la I Love Lucy. O diretor explora a claustrofobia do jantar com enquadramentos próximos, aumentando a tensão cômica.
Resultado: meia hora de confusão refinada que mostra o potencial de situações simples nas mãos certas.
One for the Road
Encerrar uma sitcom memorável é tarefa ingrata, mas o último episódio, exibido em 1993, entrega fechamento digno sem sacrificar o riso. A direção de Burrows recorre a callbacks sutis e evita o sentimentalismo fácil.
Sam reafirma que seu verdadeiro amor é o bar, decisão coerente com todo o arco do personagem. O texto também deixa portas entreabertas — escolha que permitiria, anos depois, o spin-off Frasier florescer.
Críticos apontam a finale como modelo para sucessores como Friends na arte de se despedir sem decepcionar fãs.
Bar Wars II: The Woodman Strikes Back
A rivalidade com o Gary’s Olde Towne Tavern atinge o ápice neste capítulo da sétima temporada. George Wendt (Norm) e Woody Harrelson (Woody) lideram as pegadinhas, evidenciando a química de conjunto do elenco.
O roteiro acelera o conflito sem perder coerência, enquanto as reviravoltas de “guerra de bares” inspiram futuras tramas de competição em séries como Brooklyn Nine-Nine.
Visualmente, Burrows investe em gags físicas e objetos cênicos, criando humor que ultrapassa barreiras de idioma.
Imagem: Internet
Where There’s a Will
Quando um cliente em estado terminal deixa US$ 100 mil para os frequentadores, a ganância bate à porta. A narrativa alterna solidariedade e egoísmo, expondo nuances raras em comédias da época.
Rhea Perlman (Carla) navega entre compaixão e interesse próprio, oferecendo performance que sustenta o tom agridoce. A escrita equilibra moral sem soar didática.
O episódio prova que conflitos realistas podem coexistir com piadas afiadas, lição que muitas séries atuais ainda tentam aprender.
Pick a Con… Any Con
Coach (Nicholas Colasanto) cai em golpe e mobiliza a turma para recuperar o dinheiro, em história que mistura suspense leve e humor de situação. A presença do trapaceiro Harry “the Hat” (Harry Anderson) adiciona carisma.
A direção sublinha a atmosfera de jogo com close-ups em cartas e fichas, enquanto Diane (Shelley Long) assume papel de consciência moral da mesa.
O roteiro é frenético, mas mantém lógica interna, demonstrando domínio da equipe criativa sobre ritmo cômico.
I Do, Adieu
O adeus de Diane Chambers sela um dos romances mais discutidos da TV sem optar por finais fáceis. Shelley Long entrega vulnerabilidade rara, e Danson responde com sutileza comedida.
Os roteiristas escolhem priorizar o crescimento individual dos personagens, movimento ousado para 1987, ano em que casamentos televisivos ainda eram “obrigação” de séries longas.
A decisão dialoga com discussões atuais sobre relações tóxicas, mostrando como Cheers já colocava personagens diante de escolhas complexas.
Veggie-Boyd
Woody Harrelson rouba a cena ao interpretar um garçom dividido entre honestidade e ganhos de um comercial de bebida vegetal intragável. A hipnose conduzida por Frasier rende momentos absurdos sem perder o charme.
O texto faz referência direta ao clássico Vitameatavegamin de I Love Lucy, ao mesmo tempo em que brinca com discussões sobre publicidade e ética — temas que permanecem atuais.
A energia quase infantil de Harrelson contrasta com a austeridade de Lilith, criando dinâmica cômica irresistível.
Endless Slumper
Talvez o capítulo mais dramático da série, “Endless Slumper” aborda o alcoolismo de Sam sem transformar o tema em piada ou lição moral pesada. O objeto-símbolo, uma tampinha de garrafa, sustenta a tensão emocional.
Ted Danson entrega uma atuação contida, repleta de microexpressões que indicam vulnerabilidade. A direção prefere planos longos, permitindo que o silêncio fale tanto quanto o diálogo.
A sensibilidade do roteiro ao tratar dependência em meio a gargalhadas serve de referência para produções que buscam equilibrar drama e humor.
De pilotos a finais, esses dez episódios reforçam como Cheers combinou atuações icônicas, direção inventiva e textos precisos para criar televisão atemporal. Um brinde que continua ecoando em cada nova sitcom que tenta — e raramente consegue — alcançar o mesmo patamar.

