Clássicos em xeque: 10 episódios de M*A*S*H que hoje soam ultrapassados

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Quando M*A*S*H estreou em 1972, a mistura de comédia e tragédia ambientada na Guerra da Coreia redefiniu o que se esperava de uma sitcom. Meio século depois, porém, certos capítulos da série não resistem ao teste do tempo. Seja por escolhas de roteiro ou por representações hoje consideradas problemáticas, alguns episódios despertam mais constrangimento do que nostalgia.

A seguir, analisamos dez histórias que costumam aparecer nas listas de “pule este” dos fãs. O foco está nas interpretações do elenco, nas decisões criativas de direção e na forma como cada roteiro reverbera (ou não) em 2024.

Episódios que perderam o brilho

Todos os capítulos abaixo foram veiculados entre 1972 e 1983, período em que a série passou por diferentes showrunners, diretores convidados e mudanças de elenco. Essa rotatividade criativa ajuda a explicar os altos e baixos na qualidade – e também por que certos experimentos não envelheceram bem.

“Germ Warfare” – T1E11

O roteiro aposta em humor físico e trocadilhos médicos, mas a execução revela falta de sensibilidade. Alan Alda (Hawkeye) e Wayne Rogers (Trapper) fazem boa dupla cômica, porém a trama sobre roubo de sangue e teste clandestino em prisioneiro é conduzida de forma leviana pelo diretor Terry Becker. A sequência em que os médicos embebedam Frank Burns (Larry Linville) para colher urina sintetiza o tom irresponsável do episódio.

Do ponto de vista de atuação, Linville segura o texto pastelão com timing certeiro, mas nem isso salva a narrativa absurda. Para completar, foi a despedida de Timothy Brown, cujo personagem carregava apelido associado a um insulto racial – algo que salta aos olhos hoje.

“Edwina” – T1E13

A direção de James Sheldon privilegia closes nos tropeços da tenente Edwina (Arlene Golonka), transformando-a num alvo constante de piadas. Alan Alda se esforça para manter Hawkeye carismático, mesmo quando o enredo o coloca numa aposta para “suportar” um encontro com ela. A falta de nuance na representação feminina e o desfecho sem catarse deixam o capítulo datado.

Golonka, por sua vez, tenta extrair humanidade da personagem, mostrando insegurança real por trás da trapalhada física. O roteiro, contudo, a trata como gag recorrente, desperdiçando potencial dramático.

“Henry in Love” – T2E16

McLean Stevenson exibe todo o carisma que tornaria Henry Blake querido pelo público, mas o texto escrito por Laurence Marks coloca o comandante numa relação com enfermeira bem mais jovem, situação vista hoje como problemática. A direção de William Wiard aposta em humor constrangedor, e as piadas sobre diferença de idade soam forçadas.

A última cena tenta redimir Henry com um gesto tardio, mas a sensação que fica é de complacência. Mesmo fãs que se emocionaram com a partida trágica do personagem na temporada seguinte têm dificuldades em revisitar este episódio.

“Hawkeye” – T4E19

Dirigido por Alan Alda, o episódio é praticamente um monólogo. A ideia de mostrar o cirurgião ferido e delirante numa fazenda coreana tinha potencial intimista, mas se perde no excesso de auto-análise. Sem os colegas de elenco para contracenar, a performance de Alda oscila entre o comovente e o egocêntrico.

A família coreana, sem falas, vira mero pano de fundo para os questionamentos de Hawkeye, evidenciando a falta de perspectiva local – algo que a série, em outros momentos, conseguiu retratar melhor.

“Fallen Idol” – T6E03

David Ogden Stiers já havia se juntado ao elenco como Charles Winchester, mas o foco aqui permanece em Hawkeye e Radar (Gary Burghoff). Ao tentar explorar culpa e heroísmo, o roteiro de Dennis Koenig recai em gritos e humilhações. A direção de Alan Alda realça o confronto verbal, mas a explosão de ira contra Radar torna o protagonista menos simpático.

Burghoff entrega vulnerabilidade genuína, fazendo doer quando Radar deixa de idolatrar Hawkeye. Ainda assim, a reconciliação rápida e o presente de Purple Heart soam superficiais.

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Imagem: Internet

“Lend a Hand” – T8E20

O reencontro entre Alan Alda e seu pai, Robert Alda, prometia química extra, mas a inconsistência de roteiro pesa. Dr. Borelli, apresentado como médico alcóolatra anos antes, ressurge sem grandes consequências. O diretor Charles S. Dubin investe em diálogos ágeis, porém a tensão entre pai e filho na ficção não atinge o impacto esperado.

No clímax, ambos operam um soldado usando apenas uma mão cada. A cena, embora visualmente curiosa, não compensa a falta de continuidade narrativa, algo que incomoda fãs atentos.

“Dreams” – T8E22

Sem risadas de plateia, o capítulo propõe uma imersão onírica nos traumas da equipe. A direção e o roteiro de Alan Alda tentam quebrar a fórmula, misturando horror e poesia visual. Loretta Swit (Margaret) brilha na sequência do casamento interrompido, demonstrando versatilidade emocional.

Apesar da ousadia estética – cortes rápidos, iluminação expressionista –, o episódio divide opiniões: para parte do público, abusa do tom sombrio; para outra, é obra-prima. De qualquer forma, a mudança radical de ritmo pode afastar quem busca o humor habitual da série.

“Bless You, Hawkeye” – T9E17

Dirigido por Nell Cox, este é lembrado como “o episódio do espirro”. Alda encara o desafio físico de espirrar em cena repetidas vezes, mas a repetição logo esgota a graça. O roteiro de Dan Wilcox e Thad Mumford foca quase exclusivamente em descobrir a causa psicossomática da alergia, deixando os coadjuvantes subutilizados.

Quando o psiquiatra (Allan Arbus) desvenda que tudo vem de um trauma infantil, a resolução soa anticlimática. Sem uma trama paralela para equilibrar o tom, o capítulo parece inflado.

“That’s Show Biz” – T10E01

Planejado como especial de uma hora, o episódio dirigido por Charles S. Dubin acompanha uma trupe da USO que ocupa o acampamento. A tentativa de ampliar o universo da série acaba diluindo a presença dos protagonistas. William Christopher (Padre Mulcahy) ganha momentos simpáticos, mas, no geral, o elenco fixo fica em segundo plano.

O roteiro de Ken Levine e David Isaacs apresenta números musicais e múltiplas subtramas, nenhuma desenvolvida a fundo. O ritmo arrastado evidencia como a extensão de duração nem sempre beneficia a narrativa.

“The Joker Is Wild” – T11E04

Na penúltima temporada, Mike Farrell (B.J. Hunnicutt) assume o papel de brincalhão, elaborando pegadinhas em cascata. A direção de Burt Metcalfe tenta orquestrar humor físico, mas algumas travessuras flertam com perigo real, como explosivo em arquivo. O tom desalinhado faz o público questionar se ainda assiste à mesma série.

Com Hawkeye relegado a alvo das piadas, falta contraponto dramático. O resultado é um capítulo facilmente esquecível, sinalizando desgaste criativo às vésperas do encerramento histórico de M*A*S*H.

Mesmo com deslizes, M*A*S*H segue referência em combinar riso e crítica política. Revisitar esses dez episódios ajuda a entender não só o que mudou nos padrões televisivos, mas também a coragem – nem sempre bem-sucedida – da série em testar limites narrativos.

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Sou redator especializado em conteúdo de beleza, moda e crochê. Produzo conteúdos desde 2021, tendo experiência como colunista em sites de referência.