Quase duas décadas após o fim da série, Gilmore Girls segue como uma das produções mais revisitadas pelos fãs. Reassistir aos episódios virou ritual de outono, estação que combina com o charme folheado de Stars Hollow e com a verborragia cafeinada de Lorelai e Rory.
- Quando o roteiro tropeça no tempo
- “That Damn Donna Reed” – temporada 1, episódio 14
- “A-Tisket, A-Tasket” – temporada 2, episódio 13
- “Here Comes the Son” – temporada 3, episódio 21
- “Die, Jerk” – temporada 4, episódio 8
- “Girls in Bikinis, Boys Doin’ the Twist” – temporada 4, episódio 17
- “You Jump, I Jump, Jack” – temporada 5, episódio 7
- “That’s What You Get, Folks, for Makin’ Whoopee” – temporada 7, episódio 2
- “Summer” (Gilmore Girls: A Year in the Life) – minissérie, episódio 3
Mesmo assim, alguns capítulos deixam claro que nem toda piada da virada dos anos 2000 envelheceu bem. Questões de gênero, gordofobia e elitismo voltam à superfície quando observamos a obra com o olhar de hoje. A seguir, analisamos oito episódios que tropeçam nesse quesito e como a atuação do elenco, o roteiro e a direção contribuem – ou não – para o desconforto atual.
Quando o roteiro tropeça no tempo
Cada um dos capítulos listados traz algum dilema: seja na construção das personagens femininas, seja na forma como certas camadas sociais são retratadas. Embora a alegria de rever Lauren Graham, Alexis Bledel e companhia permaneça, o texto às vezes entrega referências datadas e escolhas duvidosas que hoje soam agressivas.
“That Damn Donna Reed” – temporada 1, episódio 14
Lauren Graham e Alexis Bledel brilham ao mostrar a cumplicidade entre mãe e filha enquanto Jared Padalecki apresenta o lado doce – e controlado – de Dean. O diretor Michael Katleman mantém o ritmo ágil das falas, mas o roteiro de Daniel Palladino coloca Rory numa experiência que, hoje, mais reforça do que satiriza papéis de gênero.
A ideia de Rory vestir-se como Donna Reed para “provocar” Dean termina em confirmação dos estereótipos domésticos que o episódio pretendia ridicularizar. A performance de Bledel, no entanto, consegue transmitir desconforto genuíno, antecipando o possessivo Dean que veríamos mais tarde.
Reassistindo, fica evidente como a mensagem se perde: o texto parte para a crítica, mas volta abraçando a tradição que dizia desafiar. O resultado deixa um gosto agridoce que contrasta com o carisma dos atores.
“A-Tisket, A-Tasket” – temporada 2, episódio 13
Dirigido por Amy Sherman-Palladino, o capítulo aposta na química cômica entre Melissa McCarthy e Jackson Douglas, além de inserir Milo Ventimiglia no triângulo com Padalecki e Bledel. Ainda assim, o leilão de cestas – inspirado em “box socials” do início do século passado – revela uma dinâmica incômoda.
O texto transforma mulheres em prêmios, tornando aceitável que homens disputem a companhia delas com lances em praça pública. McCarthy entrega ótimos momentos físicos, mas o comportamento passivo-agressivo de Jackson passa como se fosse romântico.
Quando Jess supera Dean no lance pela cesta de Rory, a cena gera tensão dramática, mas reforça a ideia de que a garota é mercadoria. Essa leitura, que já incomodava alguns na época, hoje soa ainda mais problemática.
“Here Comes the Son” – temporada 3, episódio 21
Neste meio termo entre drama e piloto disfarçado, Milo Ventimiglia carrega metade do episódio em Venice Beach, enquanto Graham e Bledel seguram a tradicional química em Stars Hollow. A direção de Kenny Ortega divide a narrativa, mas o resultado perde coesão.
O roteiro tenta abrir caminho para um spin-off – Windward Circle – centrado em Jess e seu pai Jimmy (Rob Estes). A relação dos dois, porém, carece da profundidade que fez a série-mãe funcionar. Falta o diálogo rápido, falta o coração.
Assim, a audiência sente que saiu de Gilmore Girls sem aviso prévio. O contraste evidencia o quanto a força da série reside na dupla central, não em tramas paralelas mal costuradas.
“Die, Jerk” – temporada 4, episódio 8
Com direção de Stephen Clancy, o episódio oferece um showcase do talento de Graham para o sarcasmo, mas escorrega na crueldade ao lado de Bledel. A crítica de Rory a uma bailarina do campus envolve comentários gordofóbicos que hoje seriam inaceitáveis.
Liza Weil, como Paris, consegue roubar cenas ao reagir ao escândalo, mas nem sua entrega salva a sensação de bullying institucionalizado. O roteiro de Daniel Palladino usa o humor ácido típico dos anos 2000 sem considerar o impacto.
O arco termina com Rory “ganhando” nova chance no jornal, reforçando que seu privilégio social lhe garante escapar de consequências reais – um ponto que ecoará em episódios futuros.
“Girls in Bikinis, Boys Doin’ the Twist” – temporada 4, episódio 17
Florida, sol e… desconforto. Bledel e Weil mostram sintonia na comédia física, mas o texto de John Stephens faz as duas menosprezarem colegas consideradas “fúteis”. A direção de Chris Long enfatiza cortes rápidos e trilha pop, reforçando o clima de spring break.
Imagem: Internet
O trecho em que Rory e Paris beijam Madeline e Louise para chamar atenção masculina cristaliza um trope dos anos 2000 que perdeu toda a graça. A série ainda ridiculariza as mesmas garotas que servem de carona para a dupla, expondo a hipocrisia das protagonistas.
Como bônus de constrangimento, Rory liga bêbada para Dean – semente do affair que manchará ambos. O capítulo é exemplo de elitismo e “sou diferente das outras” em sua forma mais pura.
“You Jump, I Jump, Jack” – temporada 5, episódio 7
Matt Czuchry estreia de vez como Logan, trazendo charme e arrogância em igual medida. A diretora Kenny Ortega captura bem a opulência da Life and Death Brigade, mas o roteiro de Daniel Palladino glamoriza um clube de herdeiros irresponsáveis.
Rory, antes crítica do elitismo, aceita champanhe francês e um salto de plataforma como rito de passagem. Bledel transmite fascínio e nervosismo, porém o texto parece celebrar o privilégio sem questioná-lo.
Para quem acompanha a crítica social contida nos diálogos rápidos de Graham, o episódio soa como uma exceção incoerente: sobra espetáculo, falta reflexão.
“That’s What You Get, Folks, for Makin’ Whoopee” – temporada 7, episódio 2
Sem Amy Sherman-Palladino no comando, a série perde voz. Dave Paymer dirige o capítulo que praticamente encerra o arco sonhador de Lane (Keiko Agena). Após lua-de-mel frustrada, ela descobre gravidez de gêmeos – punição narrativa que limita seus sonhos musicais.
A atuação sensível de Agena evidencia a injustiça do roteiro, enquanto Todd Lowe mantém Zack no tom infantil. A desigualdade entre liberdade de Rory e destino de Lane fica gritante.
Para piorar, Lorelai tenta animar a filha transformando a casa numa “Ásia” caricata, com kimonos e hashis no cabelo – opção que hoje seria vista como apropriação cultural de gosto duvidoso.
“Summer” (Gilmore Girls: A Year in the Life) – minissérie, episódio 3
Mais de nove anos depois do final original, Lauren Graham e Alexis Bledel retornam em cena no deque da piscina municipal. Dirigido por Daniel Palladino, o capítulo abre com piadas gordofóbicas direcionadas a homens que passam de sunga – humor que já parecia deslocado na estreia de 2016.
A dupla continua carismática, mas o roteiro recicla o sarcasmo sem atualizar a mira. A participação de Carole King num musical dentro da trama vira distração crocante, porém sem impacto narrativo real.
O resultado é um episódio que lembra aos fãs que, mesmo com nostalgia em alta, Gilmore Girls ainda carrega vícios antigos que precisam ser repensados. Não à toa, parte do público prefere voltar aos anos iniciais da série para manter viva a magia de Stars Hollow.
Para mais detalhes sobre a produção e os bastidores, confira nossa guia completo da série e a matéria sobre a reunião especial de 2016.
Apesar desses deslizes, o carisma do elenco, a direção dinâmica e a identidade visual aconchegante mantêm Gilmore Girls no panteão das séries confortáveis. Mas vale ficar atento: algumas cenas pedem, no mínimo, um olhar crítico – e talvez a tecla de avanço rápido.

