Apesar de ter encerrado sua história há mais de 15 anos, fenômeno The Sopranos continua sendo o parâmetro para qualquer narrativa sobre crime organizado na TV. James Gandolfini encarnou Tony Soprano de forma tão visceral que transformou o anti-herói em ícone cultural.
Só que a telinha não parou no mafioso de Nova Jersey. Nas últimas duas décadas, diversos títulos investiram em tramas sombrias, direção cinematográfica e elencos afiados, oferecendo experiências tão ricas quanto a obra de David Chase. A seguir, listamos dez produções que comprovam isso.
Além de Tony: por que ainda vale mergulhar em novos impérios do crime
Cada série citada entrega algo distinto: seja uma estética friamente documental, seja o glamour decadente de épocas passadas. Todas, entretanto, compartilham um ponto-chave: interpretações marcantes que dão profundidade às estruturas de poder e corrupção.
Confira como roteiristas, diretores e atores elevam esses enredos a um patamar que merece o mesmo espaço na conversa pop dominada por mafiosos italianos.
Boardwalk Empire
Com Steve Buscemi no centro da tela, Boardwalk Empire exibe a transição do ator de coadjuvante excêntrico para protagonista complexo. Sua composição de Nucky Thompson equilibra carisma e frieza, sustentando cinco temporadas dirigidas, no piloto, por Martin Scorsese e orquestradas por Terence Winter, roteirista veterano de Sopranos.
O texto recorre a fatos históricos da Lei Seca para construir tramas políticas e familiares. A série impulsionou carreiras como a de Charlie Cox, hoje Demolidor no MCU, e consagrou Bobby Cannavale, premiado pelo sádico Gyp Rosetti. Nenhuma ponta do elenco passa despercebida graças ao cuidado de casting.
Visualmente, o drama investiu em reconstituição de época digna de cinema: Atlantic City dos anos 1920 ganha vida com figurinos luxuosos, sets gigantescos e fotografia que alterna filtros âmbar e azuis para destacar a dualidade entre glamour e violência.
Gomorrah
Baseada na investigação jornalística de Roberto Saviano, Gomorrah recusa qualquer romantização. Filmada em locações reais de Nápoles, a série usa paleta azul-acinzentada para reforçar a sensação de beco sem saída vivida pelo clã Savastano.
Salvatore Esposito lidera o elenco ao mostrar a metamorfose de Genny: do playboy mimado ao chefão brutal. A direção coletiva mantém ritmo tenso, com planos fechados que amplificam o perigo constante, enquanto o roteiro explora lavagem de dinheiro, política e tráfico com precisão quase documental.
A frieza das execuções e a ausência de trilha glamourosa aproximam o público da dureza do submundo napolitano, criando um contraste gritante com a mística hollywoodiana sobre máfia.
Animal Kingdom
No lugar de capos italianos, Animal Kingdom destaca uma família de assaltantes californianos chefiada por Smurf, vivida por Ellen Barkin em performance dominante. Sua manipulação emocional dos filhos é o motor dramático ao longo das seis temporadas.
Inspirado no filme australiano de 2010, o seriado trabalha assaltos de alta tensão dirigidos com câmera nervosa e cortes rápidos, enquanto roteiristas alternam flashbacks que explicam como o clã foi criado. A saída de Scott Speedman, ainda na metade da série, gerou polêmica, mas abriu espaço para reviravoltas ousadas.
O contraste entre vida doméstica sufocante e ações criminosas mantém a narrativa envolvente, questionando até onde vai a lealdade familiar quando todos dependem financeiramente da matriarca.
Bad Blood
Kim Coates, eterno Tig de Sons of Anarchy, assume aqui a figura de Declan Gardiner, braço direito do verdadeiro chefão Vito Rizzuto. A minissérie canadense baseia-se no livro Business or Blood e abraça um tom corporativo ao retratar reuniões mafiosas em torres de vidro tanto quanto em becos escuros.
O roteiro de Simon Barry equilibra dramas de lealdade tradicional e estratégias empresariais modernas, enquanto a direção privilegia planos abertos que contrastam o frio de Montreal com a ferocidade dos personagens. Na segunda temporada, o volume de traições e execuções aumenta, elevando a tensão.
Coates entrega sua melhor atuação ao dar humanidade a um criminoso que tenta defender legado e identidade em meio à modernização do crime organizado.
Godfather of Harlem
Forest Whitaker encarna Bumpy Johnson com intensidade contida, dialogando com Malcolm X, Cassius Clay e políticos reais dos anos 1960. A química entre Whitaker e Nigel Thatch, intérprete de Malcolm, sustenta diálogos sobre poder, fé e comunidade.
Criada por Chris Brancato e Paul Eckstein, a série mescla fatos históricos a tramas ficcionais, enquanto a fotografia alterna tons quentes nos bairros negros e paleta fria para reuniões da máfia italiana, sublinhando choques culturais.
Vincent D’Onofrio rouba cenas como Chin Gigante, rival que usa métodos extremos para driblar a Justiça. Suas manobras são filmadas com humor negro que alivia, sem banalizar, a violência.
Imagem: MovieStillsDB
Snowfall
Idealizada por John Singleton, Snowfall acompanha Franklin Saint (Damson Idris) em queda moral acelerada durante a chegada do crack a Los Angeles. Idris evolui de adolescente ambicioso a rei do pó, imprimindo nuances que prendem o espectador.
O roteiro costura três frentes narrativas — CIA, cartéis mexicanos e traficantes locais — explicando como interesses externos alimentaram a epidemia de drogas. A direção usa steadicam para inserir o público no caos das ruas, contrastando festas cheias de neon com becos sufocantes.
Ao longo de seis temporadas, a escalada de violência e paranoia mantém o suspense, culminando em finais de temporada impactantes que lembram tragédias clássicas.
Snabba Cash
A abertura da série sueca é aula de storytelling: em dez minutos, estabelece Leya, mãe solteira buscando investimento para startup, e Salim, assassino à beira do colapso. A atriz Evin Ahmad entrega vulnerabilidade e frieza na mesma medida.
Dirigida por Jesper Ganslandt, a produção aposta em estética minimalista, com trilha eletrônica pulsante e fotografia limpa que espelha a arquitetura de Estocolmo. A montagem paralela cria urgência ao mostrar o choque entre o mundo dos fundos de investimento e o tráfico.
Em apenas duas temporadas, o texto investe pesado em viradas inesperadas, deixando claro que, nesse universo, sucesso financeiro e violência caminham lado a lado.
Narco-Saints
Choi Woo-shik lidera elenco coreano que revive a odisseia de Cho Bong-ha em Suriname. Com apenas seis episódios, a minissérie não desperdiça tempo: cada cena avança a trama de infiltração orquestrada por agentes sul-coreanos e americanos contra um pastor traficante.
A direção de Yoon Jong-bin alterna sequências de ação em selvas tropicais com tensões psicológicas em salões de igreja, criando contraste entre fé e crime. O roteiro mantém ritmo de thriller, sustentado por diálogos cortantes e reviravoltas rápidas.
A performance de Hwang Jung-min como o carismático porém perigoso Jeon Yo-hwan confere magnetismo extra, hipnotizando vítimas e espectadores.
Gangs of Oslo
Ao explorar o submundo da capital norueguesa, a minissérie cria atmosfera claustrofóbica reforçada por tons azul-gelo na fotografia. O protagonista Moaz Ibrahim é policial com passado criminoso, dilema que o ator Emir Zamwa interpreta com tensão permanente.
Direção de Ole Endresen utiliza planos fechados e trilha percussiva para destacar a sensação de cerco, enquanto roteiristas abordam redenção e chantagem sem clichês. Cada movimento de Ibrahim ameaça expor sua história aos colegas da lei.
As seis partes contam com coreografias de luta cruas, reforçando o realismo do enredo e elevando a minissérie a um estudo de identidade à beira do abismo.
My Name
Han So-hee entrega transformação física e emocional ao viver Yoon Ji-woo, jovem que troca o luto pela vingança. A atriz passa de adolescente frágil a assassina treinada, sustentando cenas de combate corpo a corpo dirigidas por Kim Jin-min com câmera que não desvia da ação.
O roteiro vira do avesso o tema da infiltrada ao colocar a protagonista trabalhando simultaneamente para polícia e cartel. Esse conflito interno mantém suspense constante, reforçado por iluminação neon que sublinha a solidão da personagem.
Com oito episódios, a série dosa drama, mistério e artes marciais, entregando final catártico que justifica cada gota de suor e sangue vista na jornada.
Se você curte narrativas sobre crime que vão além dos estereótipos, qualquer um desses títulos tem elementos para preencher o vazio deixado por Tony Soprano. E, quem sabe, tornar-se sua próxima maratona favorita — como já aconteceu com Boardwalk Empire para muitos fãs de dramas mafiosos.

