Supernatural acumulou, ao longo de 15 temporadas, um verdadeiro exército de figuras secundárias capazes de roubar a cena. Entre caçadores, anjos, demônios e civis, vários nomes deixaram marca, mas acabaram soterrados pelo vasto universo da série.
A lista a seguir resgata nove personagens cujo impacto narrativo, somado a performances consistentes, merece ser revisto por quem acompanhou Sam e Dean Winchester desde 2005. Do roteiro à direção, cada participação foi decisiva para renovar a trama – mesmo que, depois, tenha sumido do radar dos fãs.
Personagens que brilharam e desapareceram
Selecionamos figuras de diferentes fases do seriado, analisando como atores, roteiristas e diretores construíram conflitos, tons e reviravoltas. O resultado mostra que, embora o foco sempre recaia sobre os irmãos Winchester, a série viveu de coadjuvantes capazes de mudar o jogo.
Gordon Walker
Sterling K. Brown surge nas temporadas 2 e 3 como Gordon Walker, um caçador que enxerga monstros e qualquer aliado deles como alvos a serem eliminados. A direção tonifica esse antagonismo em cenas de tensão pura, bem conduzidas por Kim Manners, que valoriza close-ups e silêncios incômodos para destacar a frieza de Gordon.
O roteiro mostra um caçador obcecado, disposto a tudo para erradicar o “mal”. A virada dramática ocorre quando ele próprio é transformado em vampiro, jogando-o na mesma condição que tanto condenava. Brown entrega um trabalho físico intenso e, ao mesmo tempo, vulnerável, deixando claro o terror interno do personagem.
Seu desfecho trágico – decapitado por Sam – sela uma das tramas mais sombrias do início da série. Ainda assim, a memória coletiva raramente cita o caçador quando se fala de vilões icônicos, prova de como a enxurrada de arcos seguintes ofuscou essa participação potente.
Max
Só duas aparições bastaram para Skylar Radzion gravar a jovem Max na temporada 14. Ao roubar o Impala para impressionar a futura namorada, ela desencadeia eventos que levam Sam e Dean a reencontrarem o pai, John Winchester, graças a um artefato místico perdido dentro do carro.
A atriz constrói uma mistura de ousadia e nervosismo típica de quem ainda tateia o desconhecido. A direção de Amyn Kaderali prioriza planos próximos para evidenciar a insegurança de Max diante dos irmãos Winchester, o que humaniza a personagem em meio ao caos sobrenatural.
Além de catalisar um momento emocional raro – a reunião de John e Mary Winchester –, Max representa uma das poucas vozes LGBTQ+ juvenis da série. Mesmo breve, sua presença adiciona diversidade e refresca a narrativa.
Frank Devereaux
Interpretado por Kevin R. McNally na sétima temporada, Frank é o paranoico especialista em falsificações que vive desconectado da sociedade. Conduzido por direção sóbria de John F. Showalter, o personagem combina humor ácido e melancolia, sublinhando a solidão de quem encara monstros humanos e inumanos.
Os roteiristas usam Frank como espelho do futuro possível de Sam e Dean: um caçador veterano, exausto e desconfiado de tudo. A atuação de McNally oscila entre sarcasmo e dor genuína, principalmente ao revelar perdas pessoais provocadas pelo estilo de vida clandestino.
Sua morte pelas mãos dos Leviatãs serve de alerta sobre o tamanho da ameaça naquela temporada. Mas, passada a fase do enredo, o nome de Frank raramente é lembrado, ofuscado por aliados mais recorrentes como Bobby Singer.
Ash
Chad Lindberg vive Ash, o hacker do Harvelle’s Roadhouse, visto nas temporadas 2 e 5. De visual “redneck” e cérebro de MIT, ele prova que estereótipos enganam. A direção de Philip Sgriccia explora bem esse contraste ao enquadrar o personagem em cenários simples enquanto ele calcula equações complexas em um notebook velho.
Graças ao roteiro, Ash funciona como ponte entre Sam, Dean e a rede de caçadores que começava a ser mapeada. Sua inteligência estratégica agiliza investigações e amplia o universo da série sem exigir longos expositórios.
Mesmo sendo peça-chave para a expansão da mitologia, o personagem some sem grande conclusão, reaparecendo brevemente no Céu. A comicidade natural de Lindberg faz falta em episódios posteriores, reforçando o potencial desperdiçado.
Kaia Nieves
Yadira Guevara-Prip estreia na 13ª temporada como Kaia, uma “dreamwalker” capaz de acessar realidades alternativas durante o sono. A atriz transmite vulnerabilidade e revolta, refletindo alguém arrastado para guerras celestiais sem preparo emocional.
Diretores como Eduardo Sánchez utilizam fotografia mais sombria nas sequências de sonhos, sublinhando o perigo invisível. O roteiro insere Kaia como chave para abrir fendas interdimensionais, recurso que alimenta tramas de multiverso até o fim da série.
Imagem: Internet
Apesar da importância conceitual, Kaia aparece poucas vezes. Ainda assim, sua relação com Claire Novak e Jody Mills aprofunda o núcleo feminino – algo escasso em Supernatural –, tornando-a indispensável para quem revisita a saga.
Benny Lafitte
Ty Olsson ganha destaque na oitava temporada como Benny, o vampiro que cria laços de irmandade com Dean no Purgatório. A química dos atores salta aos olhos, especialmente em cenas dirigidas por Jensen Ackles, que confere ritmo intimista ao retratar a lealdade improvável entre caçador e monstro.
O roteiro reforça o tom de redenção: Benny busca apenas paz, contrariando a lógica maniqueísta que Dean carregava. A atuação contida de Olsson, sempre com olhar carregado de culpa, convence o público da humanidade do vampiro.
Seu sacrifício para salvar Sam abraça a ideia central da série – família acima de tudo – e desafia a visão de bem e mal. Mesmo assim, o personagem é pouco citado quando se fala das perdas mais sentidas, mostrando como o fluxo constante de enredos pode diluir memórias afetivas.
Anna Milton
Introduzida na quarta temporada, Anna Milton (Julie McNiven) é um anjo que viveu anos como humana após abdicar da graça. Sob direção de Charles Beeson, McNiven retrata com sutileza o choque de descobrir a própria natureza celestial.
O roteiro a posiciona como contraponto a Castiel, oferecendo visão interna da burocracia angelical. Essa perspetiva conecta tramas apocalípticas, complementando informações sobre o Céu de forma orgânica.
Quando Anna decide matar Sam para impedir a ascensão de Lúcifer, a personagem rompe expectativas e ganha camadas de ambiguidade. Essa guinada dramática mantém a tensão em alta, mas a recordação da anja permanece restrita a fãs mais atentos.
Mick Davies
Na 12ª temporada, Adam Fergus interpreta Mick Davies, membro da British Men of Letters. Inicialmente autoritário, o personagem muda ao conviver com os Winchester, questionando métodos cruéis de sua organização.
A direção de P.J. Pesce destaca esse conflito moral com enquadramentos fechados, enfatizando hesitações faciais de Fergus. O texto transforma Mick de antagonista burocrático em aliado relutante, criando tensão política na comunidade de caçadores.
Sua morte prematura interrompe um arco promissor sobre reforma institucional, mas demonstra o risco real de confrontar poderes estabelecidos. Mick ilustra como Supernatural, mesmo avançada em anos de exibição, ainda ousava introduzir personagens tridimensionais.
Donatello Redfield
Por fim, Keith Szarabajka encarna Donatello Redfield, apresentado na 11ª temporada como profeta ateu. A escolha do ator, conhecido por papéis céticos, reforça a ironia de ser porta-voz de Deus sem fé alguma.
Diretores como Nina Lopez-Corrado exploram esse paradoxo em cenas de humor mordaz, enquanto roteiristas o utilizam para questionar as próprias regras do universo da série. Donatello vive em choque constante, oferecendo olhar crítico sobre a responsabilidade divina.
Embora reapareça em temporadas finais, seu nome não costuma figurar entre favoritos do público. Ainda assim, ele cumpre papel relevante ao desafiar Sam e Dean a encarar, de fato, as consequências de obedecer ordens superiores.
Relembrar esses nove personagens é, portanto, revisitar caminhos menos óbvios de Supernatural. Cada um trouxe nuances únicas, seja por atuações marcantes ou por expandir a mitologia em direções inesperadas — um lembrete de que, além dos Winchesters, a série se sustentou na riqueza de seu elenco coadjuvante.
Para quem deseja aprofundar a jornada dos irmãos, vale conferir nosso especial sobre a linha do tempo completa de Supernatural e, para curiosidades de bastidores, a matéria sobre Jared Padalecki fora das telas. Boa maratona!










