J.R.R. Tolkien defendia narrativas grandiosas, centradas em coragem, honra e numa clara distinção entre o bem e o mal. Qualquer produção que abusasse da violência ou da vulgaridade provavelmente receberia seu desdém.
Mesmo assim, a televisão moderna oferece títulos capazes de respeitar essas diretrizes, combinando aventura épica, mitologia robusta e magia envolvente. Selecionamos cinco séries que, sem dúvida, caberiam na estante do autor de O Senhor dos Anéis.
Por que essas séries remetem ao espírito de Tolkien
Em comum, todas prezam pela coerência interna do universo, evitam a glorificação do cinismo e celebram virtudes heroicas. Cada roteiro encontra maneiras de tratar temas complexos – guerra, sacrifício, amizade – sem recorrer a excessos que Tolkien considerava gratuitos.
Além disso, os criadores apostam em sistemas de magia mais místicos que matemáticos, preservando o senso de assombro que o professor de Oxford tanto admirava nos contos de fadas clássicos.
Merlin (BBC)
A produção britânica recicla a lenda arturiana em tom leve, fiel ao romantismo cavalheiresco que inspirou parte de O Senhor dos Anéis. O texto de Julian Jones, Jake Michie, Johnny Capps e Julian Murphy enfatiza o vínculo de lealdade entre Merlin e Arthur, reforçando o tema do autossacrifício que Tolkien exaltava.
Apesar de não recorrer a grandes cenas de batalha, a série mantém ritmo graças à entrega do elenco principal. A relação mestre-escudeiro evolui com naturalidade, sustentada por diálogos que mesclam humor britânico e solenidade mítica. O resultado é uma aventura otimista, que acredita na vitória do bem sem parecer ingênua.
A direção prioriza locações campestres e a fotografia realça castelos e florestas, remetendo à ideia tolkieniana de uma Inglaterra mítica. Nada de magia “científica”: os feitiços surgem como força misteriosa, reforçando o encantamento do espectador.
Avatar: A Lenda de Aang
Na animação da Nickelodeon, o roteiro de Michael Dante DiMartino e Bryan Konietzko não teme assuntos pesados: genocídio, imperialismo e trauma são apresentados logo no primeiro arco. Essa coragem lembra o posicionamento anti-guerra de Tolkien em suas cartas.
Mesmo assim, a série se mantém acessível graças à química do trio Aang, Katara e Sokka. Cada dobrador cresce diante das provações, ecoando a jornada dos hobbits – heróis comuns em missões extraordinárias. A narrativa valoriza compaixão e misericórdia, conceitos centrais na obra tolkieniana.
O sistema de dobra dos quatro elementos se integra à espiritualidade do mundo, evitando a frieza das magias “de manual”. A animação fluida reforça a grandiosidade das batalhas sem recorrer a violência gráfica, fator que certamente agradaria o professor.
The Witcher (Netflix)
Baseada nos livros de Andrzej Sapkowski, a série televisiva abraça folclore eslavo, nórdico e báltico, alinhando-se à busca de Tolkien por uma mitologia nacional inglesa. Cada criatura em cena – de kikimoras a strigas – carrega ecos desse caldeirão cultural.
Imagem: Internet
No centro da trama, Geralt de Rívia compartilha arquétipos com Aragorn: um andarilho competente, resistente ao próprio destino e dividido entre dois mundos. Quando o roteiro sublinha esse dilema, evidencia valores de coragem e honra que Tolkien tanto admirava.
O seriado, porém, flerta com a moralidade cinzenta. Ainda assim, as melhores passagens destacam escolhas altruístas, e a direção de fotografia pinta reinos contrastados, reforçando fisicamente a luta entre trevas e luz.
Frieren: Beyond Journey’s End
O anime adapta o mangá de Kanehito Yamada e Tsukasa Abe, começando onde a maioria das fantasias termina: o vilão caiu, o grupo se dispersa. Frieren, elfa praticamente imortal, encara o tempo com a mesma melancolia que ronda personagens élficos de Tolkien.
A série reflete sobre a finitude humana, tema caro ao autor britânico, enquanto explora cenários que parecem saídos de campanhas de RPG – gênero que, ironicamente, bebeu da Terra-média. O roteiro alterna episódios contemplativos e combates mágicos, sempre mantendo a magia num patamar etéreo.
A paleta suave e a trilha discreta favorecem a introspecção da protagonista. Cada encontro com antigos companheiros reforça o peso do passado, compondo um retrato delicado sobre amizade, perda e esperança.
A Knight of the Seven Kingdoms
Derivada do universo de George R. R. Martin, a série acompanha Dunk e Egg em aventuras bem anteriores aos eventos de Game of Thrones. Ao contrário do cinismo da obra-mãe, o roteiro valoriza cavalheirismo e humildade — virtudes diretamente alinhadas à filosofia tolkieniana.
Dunk não portava uma espada lendária; era apenas um cavaleiro errante tentando fazer o certo. Esse heroísmo “pé no chão” dialoga com Samwise Gamgee carregando Frodo ao topo do Monte da Perdição. Ao mesmo tempo, a produção mantém a profundidade histórica pelos quais os Sete Reinos se tornaram célebres.
Violência e intriga não desaparecem, mas são enquadradas como obstáculos morais. A dinâmica entre mestre e escudeiro evoca sentimento de família encontrada, ecoando parcerias marcantes da Terra-média. Tudo isso mantém viva a sensação de vastidão épica sem trair valores que Tolkien considerava sagrados.
Essas cinco séries provam que ainda é possível criar fantasia televisiva respeitando ideais clássicos de bravura, amizade e maravilhamento. Se estivesse em frente à telinha hoje, o professor provavelmente reconheceria nelas o fruto de uma árvore que ele mesmo ajudou a plantar.

