A adaptação live-action de One Piece pela Netflix mostrou, nas duas primeiras temporadas, que não tem medo de enxugar tramas secundárias para valorizar a narrativa principal. Com a chegada do arco de Alabasta, a estratégia deverá se repetir.
Direção, roteiro e elenco precisam manter o ritmo de uma história contínua, e isso exige escolhas drásticas. A seguir, confira oito sequências que provavelmente serão limadas e o que cada corte significa para as performances dos atores e para o trabalho dos showrunners Matt Owens e Steven Maeda.
O que a Netflix pode deixar de fora em Alabasta
Cada item da lista destaca o ponto da trama original, explica por que ele deve ser removido e analisa como essa decisão afeta a abordagem de cena, atuação e direção.
Kung-Fu Dugongs e o treinamento relâmpago de Luffy
No mangá, os Dugongs aparecem no Rio Sandora como um alívio cômico que se submete a Luffy após levar uma surra. A sequência envolve coreografias de artes marciais cartunescas que funcionam bem em animação, mas desafiam o realismo buscado pela série.
A exclusão facilitaria o trabalho de Iñaki Godoy, que não precisaria interagir com criaturas digitais de alto custo. Owens e Maeda, ao concentrar a ação em cenas físicas práticas, mantêm o foco na expressão corporal do ator e na direção de fotografia, reduzindo tempo de pós-produção.
Sem os Dugongs, a narrativa avança direto para o conflito principal, o que alivia o roteiro de Matt Owens de piadas visuais que poderiam quebrar a tensão dramática.
Eyelash, o camelo “paquerador”
Eyelash surge no deserto apenas para carregar Nami e Vivi, gerando ciúme nos demais piratas. A piada sobre o comportamento libidinoso do animal não dialoga com o tom estabelecido pela Netflix, que já suavizou o flerte de Sanji.
Emily Rudd (Nami) e Charithra Chandran (Vivi) ganham mais espaço para desenvolver interação sem depender de humor físico envolvendo CGI. A câmera pode priorizar close-ups de reação, reforçando a dinâmica de irmandade entre as duas atrizes.
Do ponto de vista de produção, descartar Eyelash evita gastos com animatrônicos ou efeitos digitais complexos, permitindo que o orçamento se concentre nas cenas em Alubarna.
Ruínas subterrâneas e a separação de Luffy, Zoro e Chopper
No anime, o trio cai em ruínas antigas, uma digressão que não acrescenta informações relevantes ao enredo. A versão live-action já mostrou preferência por economizar tempo de tela, como fez ao unir arcos menores na 1ª temporada.
A ausência desse segmento mantém a unidade de grupo, permitindo que Mackenyu (Zoro) explore mais diálogos com a equipe completa. Jacob Romero (Usopp) e Taz Skylar (Sanji) também se beneficiam de interações contínuas, reforçando química de elenco.
Para a direção, eliminar a sequência reduz montagem paralela e facilita a gestão de locações, mantendo a fotografia focada em espaços abertos do deserto.
Scorpion, o caçador de recompensas enganador
Ace encontra Scorpion apenas no anime, um personagem filler que tenta capturá-lo. Sem essa parada, Xolo Maridueña (Ace) entra em cena de forma mais objetiva, destacando sua busca por Barba Negra e seu vínculo fraternal com Luffy.
O roteiro ganha tempo para aprofundar o passado de Ace sem inserir antagonistas descartáveis. Isso fortalece o arco dramático do ator, que precisará transmitir urgência e melancolia em poucas aparições.
Steven Maeda pode investir em cenas de diálogo intimista, usando luz quente do deserto para enfatizar a relação de irmãos, em vez de coreografar outra luta episódica.
Imagem: Internet
Hasami, o caranguejo gigante
Hasami surge para resgatar os chapéus-de-palha em Rainbase. A criatura exigiria efeitos visuais equiparáveis a grandes produções de Hollywood, mas rende pouco tempo de tela.
Ao cortar o caranguejo, a direção pode optar por perseguições em veículos terrestres ou animais reais, facilitando truques de câmera e trabalho de dublês. Emily Rudd e Taz Skylar ganham sequências de ação física mais plausíveis.
Essa decisão também mantém a coerência estética da série, que tem priorizado ambientes tangíveis em vez de criaturas gigantescas geradas por computador.
O soco de Luffy em Vivi
No material original, Luffy agride Vivi para que ela aceite ajuda. A cena, hoje controversa, conflita com o tom inclusivo da adaptação. A tendência é preservar o discurso motivador sem violência física.
Iñaki Godoy poderá demonstrar autoridade usando apenas expressão vocal e presença de cena. Charithra Chandran, por sua vez, terá oportunidade de reagir a um momento dramático focado em emoção autêntica.
Para Matt Owens, o desafio é manter a mesma carga de urgência através de diálogos intensos, mantendo fidelidade temática sem repetir gestos que não correspondem à sensibilidade contemporânea.
Banho misto no palácio e voyeurismo
A sequência de comemoração no banho envolve humor sexual, com personagens masculinos tentando espiar Vivi e Nami. A Netflix já reduziu fan-service semelhante com Sanji, sinalizando que o banho deve ser cortado ou alterado.
Excluindo a cena, o texto fortalece a imagem de Nami como estrategista e de Vivi como líder, sem subtramas que objetifiquem as personagens. A direção de arte pode deslocar a celebração para um salão de banquete, mantendo clima festivo.
Essa mudança alinha a série com tendências de adaptações modernas que evitam sexualização gratuita, preservando classificação indicativa mais ampla.
Pell e a bomba de Alubarna
No anime, Pell sobrevive à explosão que salva a capital. A produção live-action já mostrou disposição em tornar mortes definitivas, como ocorreu com Mr. 9, o que indica destino diferente para o guerreiro alado.
Se Pell não resistir, a atuação de Charithra Chandran ganha um momento de luto decisivo, reforçando a gravidade do conflito. O diretor pode explorar slow motion e silêncio diegético para valorizar o sacrifício.
Do ponto de vista de roteiro, a saída permanente do personagem encerra seu arco sem deixar pontas soltas, liberando tempo de tela para concluir o cerco a Crocodile e a eventual despedida de Vivi do bando.

