O sexto capítulo de Lanterns, lançado nesta semana, confirma que a série não está apenas disposta a revelar mistérios cósmicos: ela também quer consolidar a nova fase do Universo DC no audiovisual. Entre idas e vindas temporais, o episódio mergulha nas consequências do massacre dos Manhunters em 2016 e reposiciona seus protagonistas no presente, já sem os anéis.
Mais do que multiplicar easter eggs, o episódio entrega um conjunto de atuações que elevam o material escrito pelos roteiristas Chris Mundy e Damon Lindelof, sob direção segura de Brad Anderson. A seguir, analisamos como cada intérprete e escolha criativa contribui para o impacto narrativo.
Por que o elenco de Lanterns brilha ainda mais no capítulo 6
Com foco em três Lanternas — John Stewart, Hal Jordan e Guy Gardner — o episódio distribui tempo de tela de forma equilibrada e permite que cada ator roube a cena quando chamado. Confira, em detalhes, como isso acontece.
John Stewart (Aaron Pierre)
Pierre assume o protagonismo absoluto deste capítulo, que o apresenta já aposentado do posto de Lanterna. O ator imprime um peso dramático notável ao mostrar Stewart dividido entre a culpa pela abdicação do anel e a necessidade de vingar a morte de Hal. Seu olhar cansado, sempre apoiado em silêncios estratégicos, transmite mais do que diálogos poderiam explicar.
O roteiro potencializa essa ambiguidade ao colocá-lo diante de investidores, mencionando a destruição recente em Metrópolis — referência direta ao filme Superman de James Gunn. A cena auxilia Pierre a revelar um Stewart pragmático, que usa tragédias como argumento de negócios, mas ainda carrega o trauma da batalha intergaláctica.
Visualmente, Brad Anderson reforça essa dualidade com enquadramentos fechados no rosto do ator quando ele encara a maquete da empresa Stewart Brothers. A câmera treme levemente, sugerindo instabilidade interna, e Pierre responde com microexpressões que dizem muito sobre o personagem.
Hal Jordan (Kyle Chandler)
Mesmo assassinado logo na abertura, Hal domina o episódio em flashbacks e gravações. Chandler entrega carisma clássico de herói veterano, mas adiciona camadas de melancolia — algo pouco visto em versões anteriores do piloto da USAF. O áudio da caixa postal em que chama Kerry de “Buttercup” mostra o ator confortável em flutuar entre humor leve e pressentimento de morte.
Os roteiristas usam a descoberta da chave da “Fortress of Storage” — brincadeira óbvia com a Fortaleza da Solidão — para sublinhar o legado que Hal pretendia deixar. Cada pista encontrada faz o espectador sentir falta do personagem, mérito tanto da construção dramática quanto da atuação econômica de Chandler.
Anderson enquadra os flashbacks em tons mais quentes, contrastando com o azul acinzentado do presente. Esse jogo de cores amplia o sentimento de perda e valoriza a performance contida do ator, que jamais soa exagerada.
Guy Gardner (Nathan Fillion)
Fillion prova, mais uma vez, domínio absoluto do timing cômico. A breve aparição do recorte de papelão do personagem vendendo bebidas energéticas estabelece, sem palavras, o quanto Guy busca fama após assumir o setorial 2814. Quando o episódio revela a “Lantern Signal” instalada pelo herói — plágio descarado do Bat-Sinal — o ator transforma arrogância em carisma puro.
O roteiro confirma ainda que Gardner era professor de educação física, detalhe que ecoa as HQs. Fillion aproveita para inserir trejeitos de treinador motivacional, o que contrasta com a seriedade taciturna de Stewart. Essa diferença eleva a dinâmica futura entre os dois, preparando terreno para conflitos vindouros.
Durante a conversa sobre ataques de estrela-do-mar gigantes, referência a Starro e ao longa O Esquadrão Suicida, Fillion dosa deboche e medo real, reforçando que Guy pode fazer piada sem perder a noção do perigo que ronda o universo.
Imagem: Internet
Direção de Brad Anderson
Conhecido por thrillers como O Operário, Anderson encontra no sexto capítulo a chance de misturar suspense investigativo e ficção científica. Close-ups prolongados, cortes secos e uma paleta que alterna neon e sombras criam atmosfera de filme noir espacial. A batalha interna de Stewart, por exemplo, é sugerida por espelhos e reflexos na janela do escritório, reforçando o tema dupla identidade.
O diretor também mantém ritmo acelerado sem atropelar exposições. A decupagem da cena em que John revisita Rushville equilibra o vazio da cidade — metáfora para o luto coletivo — e a urgência da investigação. É um capítulo que flui, mas ainda reserva pausas para que o público respire antes da próxima revelação.
Outro acerto é o uso de planos-detalhe: a chave com o pingente de pássaro, mostrada em close, resume toda a simbologia imaginada para Stewart. Com pouca fala, Anderson guia o espectador pelas pistas e mantém tensão até o cliffhanger final.
Roteiro de Chris Mundy e Damon Lindelof
A dupla aposta em diálogos enxutos, cheios de referências que enriquecem o universo sem sobrecarregar quem chegou agora. Mencionar Metrópolis, Gotham e Midway City reforça o mapa mental do espectador sobre onde cada peça se encaixa no DCU. O cuidado em linkar Stewart à carreira de arquiteto das HQs demonstra respeito ao material-base.
Ao mesmo tempo, os roteiristas plantam pistas para os próximos três capítulos: o mistério da chave, o possível envolvimento de Guy com Maxwell Lord e a culpa que pode corroer Stewart. Todas essas linhas se cruzam sem confundir, graças a uma estrutura que alterna presente e flashback com clareza.
Vale notar que Lindelof, conhecido por Lost e Watchmen, imprime aqui sua marca de enigmas gradativos. Cada resposta gera nova pergunta, mantendo o engajamento semana a semana, mas sem recorrer a artifícios vazios. Já Mundy (Ozark) cuida da lógica investigativa, garantindo que as motivações de Stewart pareçam concretas.
Impacto no futuro do DCU
O episódio confirma a existência ativa de Batman em Gotham, graças à piada de Stewart sobre “aquele cara-morcego”. Também deixa claro que os eventos do filme de Superman já afetaram a infraestrutura de Metrópolis. Ao citar Starro, conecta-se diretamente aos filmes de James Gunn, indicando coesão entre produções.
Essas menções funcionam, acima de tudo, como pano de fundo para as jornadas pessoais dos heróis. O fato de Stewart usar a destruição de Metrópolis como argumento comercial demonstra como eventos macros afetam vidas comuns, algo que o DCU tenta explorar nesta nova fase.
Se o plano é integrar cinema e streaming, Lanterns mostra o caminho: inserir referências sem transformar o capítulo em catálogo de conexões. Tudo serve à narrativa principal — a procura de John pelo assassino de Hal — e, ao mesmo tempo, expande o tabuleiro para crossovers futuros.
No fim, a força do capítulo reside no equilíbrio entre performance, direção e texto. O conjunto transforma pistas de quadrinhos em drama palpável, deixando a audiência ansiosa pelo próximo anel a ser aceso.







