Quinze anos após a estreia de Game of Thrones, ainda é impossível não revisitar os destinos de figuras marcantes de Westeros. A série, que fez história ao inverter arquétipos de fantasia, reservou viradas brilhantes – mas também soluções apressadas.
Entre batalhas épicas e intrigas palacianas, muitos personagens tiveram arcos que não acompanharam a qualidade de suas interpretações. A seguir, analisamos onze casos em que atuação, direção e roteiro não caminharam lado a lado até o último episódio.
Quando a atuação supera o roteiro
Nos primeiros anos, o roteiro de David Benioff e D.B. Weiss conseguia dar respiro para cada jornada. Já nas temporadas finais, o ritmo acelerado podou nuances, deixando alguns destinos sem o impacto emocional construído ao longo da série.
Brienne de Tarth
Gwendoline Christie entregou uma Brienne cheia de força e vulnerabilidade, conquistando espaço num universo majoritariamente masculino. Sua presença física, trabalhada pela direção de arte, destoava do padrão de donzelas de Westeros e reforçava o subtexto feminista da personagem.
A consagração como primeira Lady Comandante da Guarda Real soa justa, porém desconectada emocionalmente. A montagem não explora a relação de Brienne com Bran, tornando o feito simbólico, mas frio. Falta o fechamento afetivo, sobretudo após o vínculo construído com Jaime.
O roteiro, apressado, encerra o romance com Lannister sem a transição exigida pelo histórico de ambos. Christie segura a cena final no “Livro dos Irmãos”, mas o peso dramático acaba sustentado apenas por sua atuação.
Tommen Baratheon
Dean-Charles Chapman apresentou um rei gentil em meio à selvageria do trono. A interpretação delicada contrastava com a dureza de Lena Headey (Cersei) e oferecia respiro ao espectador.
A fotografia reforçava a inocência de Tommen com luzes quentes no interior da Fortaleza Vermelha. Mesmo assim, o personagem virou peão de disputas entre Tywin, Margaery e Cersei, sem voz própria.
Seu salto fatal, dirigido com enquadramento distante, sintetiza a solidão do jovem monarca, mas encerra o arco de forma abrupta. Faltou espaço para que Chapman mostrasse a gradual perda da esperança.
Viserion e Rhaegal
Os dragões secundários foram criados com tecnologia de ponta, mas, narrativamente, sempre viveram à sombra de Drogon. A escolha dos roteiristas limitou o elo emocional de Daenerys (Emilia Clarke) com os “irmãos” menos favorecidos.
Quando finalmente ganham destaque, é para cair em batalha – Viserion pelo Rei da Noite, Rhaegal pelas flechas de Euron. A direção investe em sequências espetaculares, porém sacrificam tempo de tela essencial para a construção de tensão.
O resultado é um impacto visual forte, mas sentimentalmente raso. O público sente a perda pelo peso simbólico dos dragões, não pela relação desenvolvida em cena.
Tyrion Lannister
Peter Dinklage manteve excelência do início ao fim, mesmo quando o texto vacilou. Nos anos iniciais, Tyrion brilhava com diálogos afiados; depois que a série ultrapassou os livros, suas estratégias começaram a falhar sem explicação convincente.
A direção optou por closes mais longos, convidando Dinklage a preencher lacunas do roteiro com microexpressões. Ainda assim, decisões como confiar em Cersei ou subestimar Euron destoam do gênio político apresentado antes.
Tyrion termina como Mão do Rei Bran, posição merecida pela jornada de superação familiar, mas o arco perde força pela transformação súbita de conselheiro sagaz em alívio cômico de cena.
Rickon Stark
Art Parkinson teve pouquíssimas oportunidades de mostrar o caçula Stark. Sumiu por temporadas inteiras e retornou apenas para morrer nas mãos de Ramsay Bolton.
A batalha dos Bastardos, dirigida por Miguel Sapochnik, elevou o patamar técnico da série, mas utilizou Rickon como gatilho emocional para Jon. O enquadramento longo da corrida tornou previsível o desfecho, esvaziando a tensão.
Poderia haver reapresentação gradual do personagem, permitindo que Parkinson mostrasse amadurecimento. Sem isso, a morte soou cínica, ampliando a sensação de pressa na reta final.
Hodor
Kristian Nairn conquistou fãs com pouca fala e muita expressividade corporal. “The Door”, episódio dirigido por Jack Bender, revela a origem traumática de seu nome num dos momentos mais marcantes da série.
A montagem alternada entre passado e presente garante impacto, mas fixa todo o arco do personagem em um único evento, reduzindo sua identidade a sacrifício inevitável.
Nairn transmite dor e lealdade, porém o roteiro fecha qualquer possibilidade de expansão para além da tragédia temporal, convertendo Hodor em símbolo ao invés de personagem pleno.
Rei da Noite
Desde o piloto, a direção de fotografia moldou os White Walkers como ameaça primordial. Anos de expectativa apontavam para um confronto épico com Jon Snow.
Quando finalmente chega a Batalha de Winterfell, o desfecho acontece em um golpe rápido de Arya. Apesar da coreografia eficiente, o roteiro não responde a mistérios sobre obsidiana, Valiriano ou motivações do antagonista.
A eliminação relâmpago deixa a performance física de Vladimir Furdik sem tempo para estabelecer conexão dramática. A ameaça milenar foi encerrada sem a catarse prometida.
Ghost
O lobo gigante de Jon Snow começou a série como extensão do próprio herói. O uso limitado de CGI nas últimas temporadas, porém, reduziu sua presença a aparições pontuais.
A direção priorizou dragões, sacrificando cenas que reforçariam o vínculo entre homem e lobo, fundamentais nos livros de George R.R. Martin. A despedida fria antes da viagem ao Norte gerou críticas imediatas.
Sem close nas expressões de Ghost e sem interação física vista nos primeiros anos, o momento perdeu carga emocional. O retorno no epílogo ameniza, mas não apaga a sensação de abandono narrativo.
Sansa Stark
Sophie Turner evoluiu junto com a personagem, saindo da inocência para o comando do Norte. A fotografia acompanhou essa transição, adotando tons mais frios e sombrios nas cenas em Winterfell.
Apesar da coroação empoderadora, o caminho até ali envolve violência extrema – especialmente a trama com Ramsay –, recurso de roteiro questionado por buscar maturidade através de trauma.
Turner entrega monólogos firmes e olhar calculado, mas merecia arcos que ressaltassem estratégia política, não apenas resiliência diante do terror. O final solitário reforça a vitória, porém acentua o custo humano.
Jojen Reed
Thomas Brodie-Sangster imprimiu ar de misticismo e esperança ao vidente verde. A direção valorizou seu semblante sereno em contraste com a dureza da jornada além da Muralha.
Mesmo assim, a morte brutal no episódio “The Children” encerrou cedo a parceria com Bran. Faltou espaço para explorar a importância dos Reeds na mitologia maior da série.
A despedida acelerada limita o legado do personagem a mero guia turístico do agora Três-Olhos-do-Corvo. A atuação contida de Brodie-Sangster merecia desfecho mais elaborada.
Meera Reed
Ellie Kendrick entregou fisicalidade e lealdade inabalável. Sua química com Bran oferecia doses de humanidade ao núcleo místico da trama.
Após salvar o jovem Stark múltiplas vezes, Meera recebe despedida fria em Winterfell. A direção opta por cena econômica, sem a gratidão esperada, deixando Kendrick sem material para fechar o arco.
A ausência na Batalha de Winterfell evidencia o esquecimento da personagem pelos roteiristas. Seu retorno poderia intensificar o conflito e honrar o sacrifício feito ao longo das temporadas.
