Final de The Boys muda tudo: 8 viradas que só a série teve

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A quinta e última temporada de The Boys chegou com a promessa de sangue, palavrões e reviravoltas. Cumpriu cada uma delas – mas, acima de tudo, entregou um desfile de grandes atuações que distanciaram a série dos quadrinhos originais de Garth Ennis e Darick Robertson.

Boa parte dessas alterações veio do cuidado do showrunner Eric Kripke e da sala de roteiristas em extrair todas as camadas dramáticas que o elenco podia oferecer. Abaixo, listamos oito mudanças centrais entre o final da HQ e o da série, destacando como direção, texto e performances deram nova vida a cada cena.

Mudanças-chave entre série e HQ

Do corte de personagens até destinos totalmente inéditos, o capítulo derradeiro exibe escolhas ousadas de Kripke, que dirige o episódio junto a Nelson Cragg. O resultado é um encerramento que respeita o espírito debochado da obra original, mas brilha por méritos próprios.

1. Black Noir deixa de ser o pivô secreto

Nos quadrinhos, o grande choque final é descobrir que Black Noir é um clone de Homelander enviado pela Vought para controlá-lo. A série abandona a clonagem e recai sobre Ryan (Cameron Crovetti) o papel de espelho moral do “pai”. Isso permite que Antony Starr mergulhe mais fundo na psique fraturada de Homelander, entregando trejeitos infantis e olhar de pânico quando perde o controle.

A mudança também realinha o foco narrativo em Karl Urban. Sem o twist do clone, Butcher vira antagonista direto de Homelander, elevando o conflito pessoal entre os dois. Urban trabalha nuances de culpa e raiva que não aparecem com tanta força na HQ.

Na direção, Kripke opta por planos fechados e câmeras tremidas, ressaltando o desconforto e a tensão entre pai e filho. O roteiro de Jessica Chou, por sua vez, corta explicações científicas e se concentra na tragédia familiar, reforçando o drama acima da mitologia.

2. Kimiko ganha papel decisivo na batalha

Outra grande liberdade: a batalha em frente à Casa Branca, que nos quadrinhos envolve só Homelander, Noir e Butcher, traz Kimiko (Karen Fukuhara) como fator inesperado. Com os novos poderes radioativos, ela queima o V-One do vilão, abrindo espaço para o golpe final de Butcher.

A cena é um presente para Fukuhara, que transforma grunhidos e expressões faciais em pura emoção. A atriz faz da personagem, quase sempre silenciosa, uma força catártica. O texto de Kripke ecoa isso, colocando-a como peça-chave sem quebrar a lógica estabelecida.

Visualmente, a fotografia adota tons alaranjados que contrastam com o azul do uniforme de Homelander, sublinhando a corrosão literal e simbólica do mito do super-herói perfeito.

3. Homelander cai de forma bem mais humilhante

Nos quadrinhos, a morte de Homelander é rápida – Noir o dilacera em segundos. Na TV, Antony Starr entrega talvez sua atuação mais visceral: desprovido de poderes, o personagem implora, chora, grita. O roteiro estica cada segundo para sublinhar a falência emocional do “deus” americano.

A decisão de Kripke de usar um simples pé-de-cabra, ecoando a arma usada contra Noir na HQ, traz simbolismo extra: é a humanidade (e a brutalidade) de Butcher vencendo um mito. Starr alterna berros e sussurros, enquanto Urban mantém um olhar vazio que lembra Macbeth depois do crime.

Essa escolha dramatúrgica informa o tom agridoce do final. O público ganha a catarse de ver o tirano ruir, mas não há glória heroica – apenas um silêncio desconfortável que reflete a crítica ácida da série ao culto de celebridades.

4. Butcher cede ao vírus por motivos mais pessoais

No material original, Billy Butcher decide exterminar todos os Supes por simples desilusão pós-guerra. Na série, o roteiro de Anslem Richardson adiciona camadas emotivas: o distanciamento de Ryan, a morte do cachorro Terror e o anúncio de Stan Edgar (Giancarlo Esposito) de que comandará a Vought novamente.

Urban aproveita cada perda para construir a escalada rumo ao extremismo. Seu olhar ao encontrar o corpo de Terror é curto, porém devastador, reforçando que, para ele, a batalha nunca foi sobre o mundo – era pessoal desde o início.

Kripke filma a decisão de usar o vírus com iluminação fria de laboratório, destacando o lado racional do plano e contrastando com o temperamento explosivo de Billy. O choque entre lógica e emoção faz a cena ressoar de forma mais potente do que nos quadrinhos.

5. Stan Edgar devolve longevidade à Vought

Nas HQs, a Vought praticamente some do cenário após o caos. A série escolhe o caminho oposto: Edgar retoma o trono corporativo, prometendo “voltar às origens”. Giancarlo Esposito traz sofisticação contida, substituindo a caricatura de empresário malvado por um pragmatismo gélido.

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Imagem: Internet

A presença do ator reorganiza o tabuleiro. Seu tom calmo contrasta com o caos que domina a temporada e garante ao espectador a sensação de que a podridão institucional continuará. Essa linha se conecta organicamente à possibilidade de outras produções, como Vought Rising, já ventilada pelos produtores.

O texto dá espaço a Esposito brilhar em diálogos cheios de ironia, reafirmando que, no universo de The Boys, a maior vilã é a própria estrutura de poder econômico.

6. O destino cômico e cruel de The Deep

Chace Crawford passa a temporada inteira tentando manter a relevância. No desfecho, perde tudo e ainda acaba morto por criaturas marinhas, num humor negro que só a série se atreveria a filmar. Crawford dosa arrogância e autopiedade, elevando a piada a comentário sobre masculinidade frágil.

Nos quadrinhos, The Deep sobrevive e funda outra equipe de supers. A escolha televisiva dá fechamento ao arco de redenção-falha do personagem e serve de respiro cômico após cenas pesadas. A direção investe em efeitos práticos de tentáculos e marionetes aquáticas, lembrando filmes B dos anos 1980.

Esse tom contrasta com o resto do episódio e reforça a versatilidade do elenco. Crawford abraça o ridículo sem perder a humanidade, ampliando o alcance emocional da série.

7. Confronto final de Hughie e Butcher muda de cenário e intensidade

Enquanto as HQs situam a luta no Empire State Building, o seriado leva Hughie (Jack Quaid) ao topo da Vought Tower. A escolha dá unidade visual ao episódio e sublinha o peso simbólico do império corporativo que os dois ajudaram a corroer.

Quaid interpreta um Hughie exausto, mas firme. A mudança de arma – ele atira em vez de esfaquear – dialoga com sua trajetória: foi da impotência inicial ao controle de seu próprio destino. A direção evita grandes coreografias, focando em closes que capturam lágrimas, tremores e a dor de trair alguém que já foi um mentor.

O roteiro insere pausas de silêncio que ampliam a tensão. Ao optar por não matar Butcher, Hughie mostra que quebrou o ciclo de violência. É um ponto de virada que a HQ só alcança depois de muito mais sangue.

8. Epílogo otimista com gravidez de Starlight

O encerramento oferece a Hughie e Starlight (Erin Moriarty) uma trégua rara na franquia. O casal toca uma loja de audiovisual, remetendo à vida pré-Supes de Hughie, e recusa chefiar o novo Bureau de Assuntos de Supers na CIA. A gravidez de Annie é detalhe inédito que injeta esperança.

Moriarty explora a serenidade recém-descoberta da heroína, agora longe dos holofotes. A atriz equilibra doçura e força, sugerindo que Annie continua ativa como vigilante, mas sem a pressão corporativa. O roteiro acerta ao não romantizar o futuro: ainda há incertezas, mas a vida normal volta a ser possível.

Com isso, o texto se conecta à jornada de crescimento emocional que a série construiu para o casal, algo que faltou no material original. O desfecho abriga sutil crítica ao militarismo estatal, reforçando o DNA satírico de The Boys.

Atuações, roteiro e direção fizeram a diferença

The Boys terminou onde começou: zombando de mitos e questionando o preço do poder. Se as mudanças em relação aos quadrinhos são muitas, elas nascem da confiança no elenco – de Antony Starr a Jack Quaid – e no pulso firme de Kripke para conduzir humor ácido, violência gráfica e comentário político.

Ao trocar grandes reviravoltas gráficas por dramas íntimos, a série pavimentou um encerramento mais humano e, ao mesmo tempo, fiel ao sarcasmo dos quadrinhos. Entre explosões radioativas e tentáculos assassinos, a moral permanece intacta: quando o espetáculo acaba, o que sobra são pessoas tentando consertar os destroços.

E, pelo visto, ainda há muito entulho a ser explorado nos próximos spin-offs, como Gen V.

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Sou redator especializado em conteúdo de beleza, moda e crochê. Produzo conteúdos desde 2021, tendo experiência como colunista em sites de referência.