Quando outubro chega, o catálogo do Cartoon Network vira parada obrigatória para quem curte animação com clima sombrio, mas sem abrir mão das piadas rápidas. Entre reboots, clássicos dos anos 1990 e produções dos anos 2010, o canal reuniu episódios que brincam com lendas urbanas, fantasias estranhas e até espíritos vingativos — tudo em menos de 30 minutos.
- Como o Cartoon Network mistura humor e horror em episódios de Halloween
- Ben 10 – “Beware of the Scare-Crow” (2019)
- Adventure Time – “Blank-Eyed Girl” (7ª temporada)
- Uncle Grandpa – “Costume Crisis” (4ª temporada)
- Dexter’s Laboratory – “Filet of Soul” (1997)
- Adventure Time – “The Creeps” (3ª temporada)
- Chowder – “The Spookiest House in Marzipan” (3ª temporada)
- Cow and Chicken – “Trick or Treat?” (1997)
- 6Teen – “Boo, Dude!” (1ª temporada)
- Camp Lazlo – “Hallobeanies” (3ª temporada)
- We Bare Bears – “Charlie’s Halloween Thing 2” (4ª temporada)
A seleção abaixo destaca dez capítulos que se tornaram referência nos especiais de Dia das Bruxas. Em cada um, analisamos o trabalho dos dubladores, a condução dos diretores de episódio e a criatividade dos roteiristas que conseguem equilibrar susto e humor na medida certa.
Como o Cartoon Network mistura humor e horror em episódios de Halloween
A marca registrada do canal sempre foi transformar o bizarro em algo cativante para diferentes faixas etárias. Por isso, mesmo quando os roteiros tocam em temas assustadores, os diálogos ágeis e a direção de arte colorida mantêm o tom leve. Essa combinação se repete ao longo da lista e garante revisitas anuais dos fãs.
Confira, a seguir, quais episódios merecem lugar na sua maratona de Halloween e por que cada um deles é lembrado até hoje.
Ben 10 – “Beware of the Scare-Crow” (2019)
Na versão reboot de Ben 10, o episódio coloca o herói na fazenda do avô de sua prima Penny e investe em atmosfera de filme slasher com um espantalho vivo. A direção de Colin Heck mantém ritmo acelerado, usando cortes rápidos que exploram bem o design steampunk do vilão Steam Smythe.
A força da trama está no roteiro de Charlotte Fullerton, que introduz a suspeita sobre Penny antes de revelar o verdadeiro antagonista, Aristocrow. A escolha reforça a mensagem sobre confiança familiar sem perder tempo com lições moralistas excessivas.
No quesito performance, o dublador Montserrat Hernández (voz do Ben na versão original) equilibra bravura e insegurança infantil, enquanto David Kaye se diverte ao dar sotaque aristocrático a Smythe. O resultado é um especial pouco assustador, mas cheio de humor físico e frases de efeito.
Adventure Time – “Blank-Eyed Girl” (7ª temporada)
Aclamada por brincar com gêneros, Adventure Time entrega aqui um de seus capítulos mais estranhamente tensos. A direção de Andres Salaff aposta em enquadramentos claustrofóbicos para amplificar o desconforto que as criaturas de olhos brancos provocam em Finn e Jake.
O roteiro de Tom Herpich e Steve Wolfhard subverte a típica caça a fantasmas: os monstros nada fazem além de olhar. Essa passividade gera humor e, ao mesmo tempo, pânico — uma piada visual que vira comentário sobre paranoia. O desfecho com reviravolta é simples, mas reforça a fama da série de não poupar o público de finais ambíguos.
Jeremy Shada (Finn) e John DiMaggio (Jake) usam silêncios estratégicos para transmitir medo genuíno, algo raro em desenhos infantis. As pausas dão peso dramático e transformam olhares em verdadeiros jumpscares.
Uncle Grandpa – “Costume Crisis” (4ª temporada)
A animação surreal de Peter Browngardt eleva o absurdo nesta aventura em que Chet vira um gigante de doce graças a uma máquina de fantasias. A direção prioriza cores vibrantes que contrastam com o clima sinistro de ver crianças querendo devorar o protagonista de caramelo.
O roteiro, assinado por Myke Chilian, abraça o humor grotesco sem ultrapassar limites para o público infantil. A sequência final, em que tudo se resolve com um trocadilho bizarro, mostra o domínio da equipe sobre timing cômico.
Kevin Michael Richardson, voz de Chet, adiciona desespero controlado às falas, criando empatia instantânea. Já o próprio Browngardt, que interpreta Uncle Grandpa, mantém sua energia anárquica habitual, guiando o espectador por um carnaval de referências ao slasher clássico.
Dexter’s Laboratory – “Filet of Soul” (1997)
Genndy Tartakovsky dirige um dos raros episódios realmente assustadores da série, focado no fantasma do peixinho Fishy. Cores mais escuras e sombras alongadas fazem contraste com o laboratório geralmente bem-iluminado do menino-gênio.
O roteiro de Paul Rudish dosa o humor negro ao mostrar Dexter e Dee Dee testando engenhocas para capturar a alma do peixe. A piada visual de um animal minúsculo virar ameaça sobrenatural é o coração do episódio.
Christine Cavanaugh (Dexter) e Kat Cressida (Dee Dee) mantêm química impecável, alternando medo e irritação fraterna. O susto final, digno de filme B, prova que a série sabia brincar com o inesperado sem trair seu tom científico.
Adventure Time – “The Creeps” (3ª temporada)
Primeiro especial de Halloween da série, “The Creeps” funciona como paródia de Agatha Christie: todos presos em mansão, com direito a “fantasma” eliminando convidados. A direção de Bong Hee Han cria atmosfera de mistério com iluminação baixa e corredores estreitos.
Roteirizado por Rebecca Sugar e Naoko Takeuchi, o episódio mistura elementos de “quem é o assassino?” com humor pastelão. A revelação de que Jake armou o susto, seguida da entrada de um espírito real, garante a virada irônica típica do programa.
O elenco de vozes repete o entrosamento: Olivia Olson transforma a habitual doçura de Princesa Jujuba em pânico convincente, enquanto John DiMaggio alterna entre vilão teatral e amigo brincalhão. O resultado é um capítulo que dita o padrão para futuros Halloweens na Terra de Ooo.
Imagem: Internet
Chowder – “The Spookiest House in Marzipan” (3ª temporada)
A série de C.H. Greenblatt aposta em narrativa metalinguística ao começar com um fantochinho de Gazpacho como narrador. A direção brinca com cortes entre bonecos e animação tradicional, reforçando a sensação de lenda urbana contada à luz de lanternas.
Greenblatt também assina o roteiro, recheado de referências a clássicos do terror, de Psicose a A Bruxa de Blair. O uso de humor culinário — marca de Chowder — surge quando ingredientes ganham vida própria dentro da casa mal-assombrada.
Nicky Jones, que faz Chowder, entrega inocência contagiante, enquanto Dana Snyder (Gazpacho) rouba a cena ao quebrar a quarta parede. O episódio prova que a série sabia dialogar tanto com crianças quanto com adultos cinéfilos.
Cow and Chicken – “Trick or Treat?” (1997)
Dirigido por David Feiss, o capítulo transforma o suburbano bairro dos protagonistas em cenário de pesadelo cartunesco. O traço exagerado de Hanna-Barbera ganha luz avermelhada sempre que Red Guy aparece, reforçando o tom diabólico cômico do vilão.
O roteiro coloca Cow e Chicken tentando provar que são “adultos” para ganhar mais doces, tópico que rende piadas sobre amadurecimento. A participação do espectro “Dead Ghost” introduz humor macabro sem assustar demais.
A dublagem de Charlie Adler (que faz Cow, Chicken e Red Guy) é show à parte, alternando timbres em segundos. O resultado é um caos sonoro que acompanha a estética nonsense da série e faz deste um dos especiais mais lembrados dos anos 1990.
6Teen – “Boo, Dude!” (1ª temporada)
Produção canadense menos conhecida no Brasil, 6Teen mostra que o terror também cabe em shopping center. A direção de Karen Lessman foca em planos abertos para explorar corredores vazios após o expediente, criando sensação de “cidade fantasma” moderna.
O roteiro de Sean Jara contrapõe Jen, presa a um traje de porquinho imposto pelo chefe, aos garotos tentando assustar o segurança Ron. O humor surge do conflito entre querer parecer maduro e ainda curtir a data, temática típica da adolescência.
Os dubladores Brooke D’Orsay (Caitlin) e Christian Potenza (Jonesy) capturam o cinismo adolescente sem soar forçado. Mesmo com pouca fama, o episódio se destaca pelo retrato realista do momento em que Halloween deixa de ser “coisa de criança”.
Camp Lazlo – “Hallobeanies” (3ª temporada)
No acampamento comandado por Joe Murray, o especial brinca com a ideia de celebrar o Dia das Bruxas fora de época. A direção artística usa laranjas e roxos intensos para simular o outono, apesar da trama ocorrer em pleno verão.
O roteiro de Merriwether Williams gira em torno de Lazlo e amigos se escondendo para fazer “doce ou travessura”. A confusão de Scoutmaster Lumpus, crente estar delirando, rende situações de “horror cômico” digno dos desenhos da velha guarda.
O veterano dublador Jeff Bennett interpreta Lumpus com dramatização exagerada, enquanto Carlos Alazraqui mantém o otimismo contagiante de Lazlo. A combinação cria um capítulo nostálgico que remete às fogueiras e contação de histórias das colônias de férias.
We Bare Bears – “Charlie’s Halloween Thing 2” (4ª temporada)
Dirigido por Manny Hernandez, o especial funciona como antologia: Charlie conta quatro contos de terror estrelados pelos ursos. O traço levemente mais sombrio e a paleta dessaturada diferenciam cada segmento visualmente.
Os roteiristas Christina C. Nguyen e Mikki Crisostomo parodiam clássicos do gênero — de zumbi a invasão alienígena — sem fugir do humor cotidiano que define a série. A escolha de começar e terminar na cabana de Charlie cria moldura narrativa coesa.
Jason Lee (Charlie) empresta entusiasmo de contador de histórias, enquanto Eric Edelstein, Bobby Moynihan e Demetri Martin mantêm a química dos irmãos ursos. A alta qualidade de animação consolida o episódio como um dos grandes especiais da década.
Seja pela criatividade dos roteiros, pela entrega dos dubladores ou pelas escolhas visuais ousadas, esses dez episódios comprovam por que o Cartoon Network permanece como referência quando o assunto é Halloween animado — sempre equilibrando sustos leves e humor escancarado.

