Wednesday Addams surgiu nos quadrinhos de Charles Addams em 1938, ganhou nome na TV em 1964 e, desde então, foi interpretada por nove atrizes em produções que vão do live-action à animação 3D. Cada versão refletiu o olhar de seus roteiristas e diretores sobre essa garota de humor sombrio, dando novas camadas à filha mais célebre da Família Addams.
- Da inocência macabra ao sarcasmo afiado: nove interpretações em foco
- 9. Jennifer Surpren – Halloween with the New Addams Family (1977)
- 8. Cindy Henderson – The Addams Family (animação 1973)
- 7. Debi Derryberry – The Addams Family (animação 1992)
- 6. Nicole Fugere – The New Addams Family (1998) e Addams Family Reunion (1998)
- 5. Melissa Hunter – Adult Wednesday Addams (websérie 2013-2015)
- 4. Chloë Grace Moretz – The Addams Family (2019) e The Addams Family 2 (2021)
- 3. Lisa Loring – The Addams Family (1964-1966)
- 2. Christina Ricci – The Addams Family (1991) e Addams Family Values (1993)
- 1. Jenna Ortega – Wednesday (série 2022)
Da doçura de Lisa Loring ao sarcasmo mortal de Jenna Ortega, a personagem sempre se manteve reconhecível, mas nunca igual. A seguir, avaliamos cada encarnação, destacando escolhas de atuação, condução de roteiro e direção que consolidaram — ou transformaram — a essência de Wednesday.
Da inocência macabra ao sarcasmo afiado: nove interpretações em foco
Ordenamos as versões em um panorama histórico que evidencia como o perfil de Wednesday acompanhou as mudanças na linguagem audiovisual e no gosto do público. Confira abaixo.
9. Jennifer Surpren – Halloween with the New Addams Family (1977)
Dirigido por David Steinmetz, o especial televisivo trouxe quase todo o elenco original da série dos anos 1960. Para manter uma Wednesday infantil em cena, os roteiristas criaram a irmã caçula “Wednesday Jr.”, vivida por Jennifer Surpren. A atriz replicou a entonação suave de Lisa Loring, mas sem o mesmo espaço dramático que a predecessora teve no seriado.
Surpren contracenou com a própria Loring, agora adulta, reforçando o tom nostálgico do projeto. A direção priorizou o reencontro do elenco, deixando pouco tempo para conflitos individuais. Como resultado, a jovem intérprete teve participação limitada, funcionando quase como alívio cômico em gags pontuais.
Apesar da curta duração em tela, Surpren demonstrou cuidado em preservar a combinação de delicadeza e humor mórbido que define a personagem. A proposta de Steinmetz, porém, era meramente celebrar o passado, não reinventá-lo, e essa Wednesday ficou como curiosidade para fãs completistas.
8. Cindy Henderson – The Addams Family (animação 1973)
No primeiro desenho da franquia, produzido pela Hanna-Barbera sob direção de Charles A. Nichols, Cindy Henderson deu voz a uma Wednesday surpreendentemente expansiva. Usando um timbre agudo e alegre, a atriz contrastou a iconografia sombria com um entusiasmo infantil que refletia a estética colorida das manhãs de sábado da época.
Os roteiros colocavam a família em incontáveis road trips, o que pedia ritmo acelerado e humor físico. Henderson adaptou-se a esse formato, pontuando cada linha com risadas e surtos de animação, algo distante do deadpan clássico. A direção de voz exigia clareza e dinamismo para o público mirim, justificando o tom quase cartunesco.
Mesmo usando vestido rosa em alguns episódios, a personagem não abandonou o apreço por brincadeiras macabras, garantindo fidelidade temática. Foi um experimento que pavimentou o caminho para releituras posteriores, mostrando que Wednesday podia flertar com a leveza sem perder o DNA gótico.
7. Debi Derryberry – The Addams Family (animação 1992)
Com a boa recepção do longa live-action de 1991, a CBS encomendou uma nova animação. Gerardo Preciado assumiu a direção, e Debi Derryberry — voz de Jimmy Neutron — trouxe equilíbrio entre a doçura de Loring e a apatia de Ricci. Sua Wednesday falava baixo, mas com dicção firme, realçando a inteligência precoce da personagem.
Os roteiros apostaram em tramas episódicas que misturavam mistério leve e moral de fim de capítulo, exigindo de Derryberry nuances que transitavam entre o espanto infantil e a ironia. Ela entregou timing cômico preciso, ainda que limitado pelo formato de 22 minutos.
John Astin voltou como Gomez, e a direção de dublagem buscou reproduzir a química familiar vista nos filmes. Derryberry cumpriu a missão, mas a série privilegiava aventuras fofas, atenuando o lado sombrio. Assim, sua Wednesday brilha mais pela consistência vocal do que pela profundidade dramática.
6. Nicole Fugere – The New Addams Family (1998) e Addams Family Reunion (1998)
Após o sucesso dos filmes de Barry Sonnenfeld, a Fox Family lançou um telefilme e, na sequência, uma sitcom conduzida por Steve Waterman. Nicole Fugere herdou o papel e conciliou o humor ácido de Christina Ricci com a alegria inocente da era 1964. Seu olhar fixo e sorriso tímido criaram contraste que funcionou bem no formato multicâmera.
O roteiro optava por piadas mais escancaradas e toques de pastelão, forçando Fugere a alternar entre sarcasmo seco e reações físicas exageradas. A atriz se mostrou versátil, garantindo que a personagem se mantivesse o centro de gravidade das situações bizarras.
Apesar das críticas à produção — considerada abaixo do padrão cinematográfico da década —, a interpretação de Fugere recebeu elogios como um dos pontos altos. Faltou, entretanto, direção mais refinada para explorar camadas psicológicas além da superfície cômica.
5. Melissa Hunter – Adult Wednesday Addams (websérie 2013-2015)
Autoproduzida e financiada por fãs, a websérie escrita, dirigida e estrelada por Melissa Hunter apresentou uma Wednesday adulta tentando sobreviver a Los Angeles contemporânea. A ambientação realista e o roteiro satírico permitiram à atriz explorar temas como sexismo e cultura pop, sempre sob o prisma mórbido característico.
Imagem: Internet
Hunter optou por um registro minimalista: postura ereta, voz baixa e pausas milimétricas que ampliavam o efeito do humor negro. A ausência de orçamento elevado foi compensada com textos afiados e mise-en-scène econômica, ressaltando a presença magnética da protagonista.
Mesmo fora do circuito tradicional, a produção influenciou leituras posteriores, especialmente no senso de justiça que se tornaria marca da versão de Jenna Ortega. Limitada a esquetes curtos, Hunter não pôde desenvolver arcos longos, mas deixou contribuição relevante à mitologia da personagem.
4. Chloë Grace Moretz – The Addams Family (2019) e The Addams Family 2 (2021)
Sob direção de Conrad Vernon e Greg Tiernan, a animação 3D buscou fidelidade à arte de Charles Addams. Chloë Grace Moretz abraçou o legado de Ricci e adicionou cadência calculada, inspirada — segundo a própria atriz — em Hannibal Lecter. O resultado é uma Wednesday que soa precisa, quase clínica.
Os roteiros de Matt Lieberman colocam a personagem em crises de identidade, afastando-a momentaneamente dos valores da família para, no fim, reforçá-los. Moretz modulou o texto com ironia gelada, mas inseriu fragilidade sutil durante os conflitos internos, o que tornou a jornada crível para o público infantojuvenil.
A direção apostou em cores vivas e ritmo ágil, e Moretz equilibrou essa estética pop com entonação sombria. A química com Oscar Isaac e Charlize Theron, vozes de Gomez e Mortícia, ajudou a enfatizar o elo familiar, ainda que a profundidade emocional se perca em meio à comédia visual.
3. Lisa Loring – The Addams Family (1964-1966)
Com roteiro de David Levy e direção de Sidney Lanfield, a sitcom original transformou os quadrinhos em personagens vivos. Lisa Loring, então com seis anos, definiu a primeira assinatura gestual de Wednesday: trancinhas, olhar curioso e sorriso suave ao falar sobre decapitar suas bonecas.
A performance apostava em gestos exagerados típicos da televisão da época, mas Loring mantinha naturalidade encantadora. Ela fazia contraponto ao humor verbal de Gomez e Mortícia, oferecendo inocência que realçava a sátira à família tradicional americana.
Seu carisma foi tão marcante que cenas como a icônica dança com Lurch viraram referência permanente. A série priorizava roteiros episódicos com piadas rápidas, porém a espontaneidade de Loring elevou cada esquete, criando o modelo sobre o qual todas as versões seguintes seriam avaliadas.
2. Christina Ricci – The Addams Family (1991) e Addams Family Values (1993)
Dirigidos por Barry Sonnenfeld e roteirizados por Caroline Thompson e Paul Rudnick, os filmes devolveram o gótico elegante à franquia. Christina Ricci, então com 10 anos, personificou o deadpan definitivo: olhar sem piscar, voz monocórdia e timing de sarcasmo que arrancava risadas mesmo em silêncio.
Ricci introduziu a rivalidade homicida com Pugsley e consolidou a inteligência estratégica de Wednesday. A direção de Sonnenfeld permitiu planos-médios prolongados que valorizavam a economia de movimentos da atriz, tornando cada expressão mínima um punchline.
O roteiro lhe deu arcos próprios, algo inédito até então, e Ricci dominou a tela ao debater moralidade com adultos ou liderar crianças em um acampamento de verão, criando momento que entrou para o cânone pop. Sua influência permanece nítida em quase todas as releituras posteriores.
1. Jenna Ortega – Wednesday (série 2022)
Com produção executiva de Tim Burton e episódios dirigidos por ele e outros cineastas, a série da Netflix coloca Wednesday no centro da narrativa. Jenna Ortega reúne elementos de todas as predecessoras: o sarcasmo de Ricci, a disciplina gestual de Loring e o senso de justiça que Melissa Hunter popularizou.
O roteiro de Alfred Gough e Miles Millar expande a mitologia ao matricular a personagem na Nevermore Academy, exigindo que Ortega explore vulnerabilidade, amizade e até romance sem trair a essência sombria. A atriz criou maneirismos próprios, como não piscar em cenas chave e dançar com movimentos inspirados em Siouxsie Sioux, reforçando a singularidade da interpretação.
Burton privilegia enquadramentos frontais e paleta fria, potencializando a performance contida de Ortega. O resultado é uma Wednesday complexa: sociopata funcional, mas leal; macabra, mas empática. Essa profundidade, aliada ao carisma da atriz, tornou a versão a mais detalhada até hoje.

