Jack Reacher dominou o streaming com cenas de ação coreografadas milimetricamente e um protagonista carismático. Ainda assim, o universo do suspense policial oferece outras produções – muitas delas baseadas em livros – que entregam atuações mais complexas, direções ousadas e roteiros igualmente eletrizantes.
- Por que abrir espaço na agenda além de Reacher?
- Kurt Wallander – melancolia escandinava em ritmo de xadrez
- Slow Horses – espiões rejeitados e o show de Gary Oldman
- Harry Hole – de “Boneco de Neve” ao renascimento na Netflix
- Bosch – Titus Welliver e a Los Angeles que respira crimes
- Orphan X – o ex-assassino que promete abalar o streaming
- The Day of the Jackal – o clássico que inspirou metade do gênero
- Vale a maratona?
Da frieza nórdica de Kurt Wallander ao humor sombrio de Slow Horses, listamos seis franquias que merecem a atenção de qualquer fã de crime thriller. O foco aqui é a combinação entre desempenho dos elencos, visão dos diretores e fidelidade (ou não) aos autores originais, sempre comparando, de leve, com o fenômeno Reacher.
Por que abrir espaço na agenda além de Reacher?
Enquanto a quarta temporada de Reacher e o derivado centrado em Neagley seguem sem data definida, essas produções já estão disponíveis – ou a caminho – nos principais serviços de streaming. Cada uma carrega características próprias: investigações mais cerebrais, humor ácido, atmosfera noir ou mesmo tensão geopolítica.
O resultado é um cardápio variado que, embora compartilhe o DNA do suspense de Lee Child, oferece nuances que Reacher, com seu foco em pancadaria e justiça rápida, não cobre por completo.
Kurt Wallander – melancolia escandinava em ritmo de xadrez
Nos romances de Henning Mankell, o detetive Kurt Wallander avança como quem move peças num tabuleiro gelado. Essa cadência foi reproduzida em duas adaptações: a sueca, estrelada por Krister Henriksson, e a britânica, com Kenneth Branagh no papel-título. Enquanto Henricksson aposta em sutilezas e silêncios opressores, Branagh destaca a exaustão física e emocional do personagem.
Dirigidos majoritariamente por Stephan Apelgren (versão sueca) e Philip Martin (britânica), os episódios evitam pirotecnia. A câmera prefere close-ups prolongados, reforçando a solidão do investigador. O texto, sempre fiel à crítica social de Mankell, mergulha em temas como xenofobia e crise de saúde mental na polícia.
O resultado é um thriller mais introspectivo que Reacher, mas igualmente recompensador. Para quem busca realismo nu e cru – inclusive sobre o preço pago pelos que caçam assassinos – Wallander é parada obrigatória.
Slow Horses – espiões rejeitados e o show de Gary Oldman
Baseada na série Slough House, de Mick Herron, Slow Horses coloca em cena um elenco de “párias” do MI5. Gary Oldman domina a tela como Jackson Lamb, um chefe ranzinza que esconde genialidade sob camadas de sarcasmo e litros de uísque barato. Ao seu lado, Jack Lowden (River Cartwright) equilibra ingenuidade e ambição, criando um contraponto perfeito.
A direção de James Hawes estabelece o tom: cenários claustrofóbicos, humor sombrio e zero glamour. Já o roteiro de Will Smith (não o ator) segue fiel ao espírito dos livros, entregando diálogos afiados e tramas que trocam tiroteios por intriga institucional.
Mesmo sem a adrenalina física de Reacher, Slow Horses compensa com tensão psicológica e um Oldman em estado de graça – performance digna de prêmio que confirma por que o ator é considerado camaleônico desde O Espião que Sabia Demais.
Harry Hole – de “Boneco de Neve” ao renascimento na Netflix
Jo Nesbø levou o detetive Harry Hole aos cinemas em 2017 com A Neve Assassinou, estrelado por Michael Fassbender. O filme, dirigido por Tomas Alfredson, enfrentou problemas de pós-produção que deixaram buracos no roteiro e enfraqueceram a atuação de um elenco promissor.
Agora, a Netflix aposta em The Devil’s Star – quinto livro da série – para redimir o personagem. Com direção de Mikkel Nørgaard (The Killing) e um protagonista ainda não revelado oficialmente, a produção promete resgatar o lado sombrio e quase sobrenatural que fez de Harry Hole um fenômeno literário.
Se cumprir a promessa, a série deve destacar o conflito interno do detetive alcóolatra e obcecado, algo apenas sugerido em Reacher. A expectativa é de diálogos densos e fotografia que ecoe o inverno norueguês, transformando Oslo num personagem adicional.
Imagem: Rald Plante/Netflix
Bosch – Titus Welliver e a Los Angeles que respira crimes
Titus Welliver se fundiu a Harry Bosch ao longo de sete temporadas na Prime Video e agora em Bosch: Legacy. O ator usa olhar contido e voz firme para transmitir um senso de justiça pétrea sem cair em caricaturas. Essa sutileza faz Bosch parecer um veterano real, não um super-herói.
Os roteiros, supervisionados por Michael Connelly (criador dos livros) e Eric Overmyer, focam em tramas corais, deixando Los Angeles pulsar como cenário e catalisador de conflitos. A direção alterna enquadramentos abertos das colinas de Hollywood com planos fechados que ressaltam tensões morais.
Diferentemente de Reacher, Bosch não vive na estrada; ele encara consequências a longo prazo em um mesmo distrito policial. O resultado é uma evolução de personagem mais profunda, sustentada pela atuação contida e precisa de Welliver.
Orphan X – o ex-assassino que promete abalar o streaming
Evan Smoak, criação de Gregg Hurwitz, é um ex-agente secreto que virou justiceiro particular. Ainda sem elenco divulgado, a adaptação em desenvolvimento chama atenção pelo envolvimento do roteirista Ben Smith (The Martian) e pelo interesse declarado de atores de peso – rumores apontaram Bradley Cooper e Jeremy Renner, mas nada foi oficializado.
Nos livros, a ação é descrita com detalhamento quase militar. Se a série mantiver esse nível de precisão tática, deve oferecer coreografias de combate ainda mais realistas que as de Reacher. A grande dúvida recai sobre quem carregará o fardo emocional de Smoak, dividido entre culpa e missão.
A escolha de diretor e protagonista será decisiva. Caso acerte, Orphan X tem potencial para equilibrar o charme errante de Reacher com a alta tecnologia de thrillers como Jason Bourne.
The Day of the Jackal – o clássico que inspirou metade do gênero
Frederick Forsyth publicou O Dia do Chacal em 1971 e mudou para sempre a literatura de espionagem ao priorizar o “como” e o “porquê” do assassino, não o “quem”. A versão cinematográfica de 1973, comandada por Fred Zinnemann e estrelada por Edward Fox, virou aula de tensão gradual sem precisar de explosões.
Em 2024, o Peacock lançou uma nova leitura, cabeça de Eddie Redmayne como o enigmático Chacal e direção de Brian Kirk (Game of Thrones). A minissérie moderniza a trama para a era da vigilância digital, mas mantém o jogo de gato-e-rato que consagrou o original.
Redmayne abandona maneirismos e aposta num minimalismo frio, enquanto a roteirista Ronan Bennett injeta críticas a sistemas de segurança globais. O projeto já garantiu segunda temporada, mostrando que ainda há fôlego para revisitar esse marco que pavimentou o caminho para personagens como Jack Reacher.
Vale a maratona?
Cada uma dessas produções oferece algo que Reacher, por opção criativa, deixa em segundo plano: profundidade psicológica, humor institucional, geografia fixa ou crítica política. Se você é fã de ação direta, continue com Jack Reacher; mas, se busca nuances dramáticas e atuações premiáveis, essas seis opções provam que o suspense policial está longe de uma fórmula única.

