Porquinhos-da-Índia que viram bolsas, pintinhos convertidos em brincos e felinos esculpidos em saltos altos. A cena pode parecer saída de um conto fantástico, mas descreve a nova obsessão das grifes de luxo: acessórios em forma de animais.
- Quando o reino animal invade o closet
- Chanel: Matthieu Blazy faz do zoológico um novo clássico
- Dior: Jonathan Anderson cultiva um jardim encantado
- Schiaparelli: Daniel Roseberry exibe ferocidade escultural
- Coach + Brain Dead: dinossauros urbanos ganham as ruas
- JW Anderson & Loewe: microtalismãs feitos à mão
- Tory Burch: espada marinha vira ícone minimalista
- Saint Laurent: maximalismo oitentista em voo luxuoso
- Animal mania: tendência passageira ou novo clássico?
Depois de temporadas dominadas pelo minimalismo, a moda abre espaço para o lúdico. Nas coleções Resort e Inverno 2026, peças inspiradas em jardins, oceanos e selvas apareceram como pequenos talismãs que carregam bom humor, escapismo e, claro, muito desejo de compra.
Quando o reino animal invade o closet
De broches hiperrealistas a chapéus com barbatanas, cada marca escalou “atores” próprios — seus acessórios — para interpretar papéis de destaque. A seguir, veja como diferentes diretores criativos transformaram bichos em protagonistas fashion.
Chanel: Matthieu Blazy faz do zoológico um novo clássico
Responsável por injetar frescor na maison, Matthieu Blazy trouxe um elenco variado às passarelas da Chanel. Pintinhos pendurados em brincos dividiram cena com girafas bordadas em bolsas, enquanto poodles e dálmatas apareceram em canutilhos luminosos. O diretor criativo acerta ao equilibrar o DNA clássico da marca com toques de irreverência lúdica.
O roteiro visual, costurado por uma equipe de artesãos, mantém a elegância francesa mesmo quando flerta com o surreal. Detalhes minuciosos, como libélulas que viram fechos de vestido, comprovam que a “performance” dos acessórios vai além do apelo cênico: há domínio técnico e narrativa coesa em cada peça.

Dior: Jonathan Anderson cultiva um jardim encantado
Na Dior, Jonathan Anderson manteve o romantismo da casa, mas trocou a ironia por delicadeza quase botânica. Caracóis, joaninhas e abelhas — espécies que Christian Dior tanto admirava em seus jardins — ganharam forma em tiaras, cintos e broches de ouro palha.
Anderson dirige a coleção como quem filma um curta-metragem bucólico: cores suaves, tecidos fluidos e closes em pingentes cravejados de pedras. A atuação dos acessórios, portanto, funciona como ponto de virada que sublinha a herança da maison sem parecer repetitivo.

Schiaparelli: Daniel Roseberry exibe ferocidade escultural
Fãs do surrealismo encontraram terreno fértil no trabalho de Daniel Roseberry para a Schiaparelli. O estilista convocou felinos, víboras e aves para protagonizar sapatos que parecem esculturas de galeria. Saltos reproduzem mandíbulas e bicos em metal dourado, evocando a ousadia de Elsa Schiaparelli nos anos 1930.
Roseberry conduz seus “atores” com dramaticidade operística. Cada peça carrega tensão entre luxo e estranhamento, lembrando que a marca sempre flertou com o extraordinário. Críticos apontam a coleção como uma das leituras mais afiadas da tendência, graças ao diálogo direto com a história da maison.

Coach + Brain Dead: dinossauros urbanos ganham as ruas
Se o luxo aposta em ourivesaria, a Coach prefere o apelo pop. A collab com a Brain Dead apresentou bolsas que lembram criaturas de desenho animado, mantendo a pegada urbana da etiqueta nova-iorquina. O “ator principal” foi o dinossauro de couro, já querido pelo público após viralizar no ano passado.
A direção de arte investe em cores saturadas e humor autoparódico. Modelos desfilaram charmosos híbridos entre bonecos e utilitários, reforçando a identidade jovem da casa. Aqui, a performance dos acessórios conversa diretamente com a cultura do streetwear e com a lógica de colecionáveis.
Imagem: Reprodução

JW Anderson & Loewe: microtalismãs feitos à mão
Jonathan Anderson, também à frente da própria JW Anderson e da Loewe, abastece o mercado de charms artesanais. Cachorrinhos de tricô, elefantes em miçangas e insetos reluzentes aparecem pendurados em bolsas ou jaquetas, criando movimento e avivando texturas.
A costura manual dá tom intimista à apresentação, destacando a habilidade das equipes de ateliê. O roteiro dessas coleções valoriza o toque humano, contrastando com a produção industrial em massa. Cada peça atua como talismã pessoal, convidando o consumidor a construir narrativas afetivas.

Tory Burch: espada marinha vira ícone minimalista
No Inverno 2026, Tory Burch homenageou o peixe-espada em broches prateados. A escolha surpreendeu quem associa a marca a referências boho, mas o resultado conquistou elogios pela sofisticação contida. O acessório brilha como ponto focal em looks de alfaiataria enxuta.
A diretora criativa filma sua narrativa em plano-sequência: poucos elementos, execução impecável e impacto silencioso. O peixe-espada, além de assegurar identidade marítima, simboliza resiliência — mensagem sutil em tempos turbulentos.

Saint Laurent: maximalismo oitentista em voo luxuoso
A Saint Laurent mergulhou nos anos 80 para apresentar brincos gigantes em formato de pássaro. Com plumas metálicas e cristais, os acessórios voam alto no jogo de luzes do desfile noturno, em sintonia com a herança glam da marca.
Anthony Vaccarello dirige o espetáculo como um videoclipe de rock: sombras marcadas, silhuetas justas e muita atmosfera. Os pássaros dominam close-ups, garantindo que a plateia — e o feed de redes sociais — registre a extravagância controlada.

Animal mania: tendência passageira ou novo clássico?
Entre o luxo surreal de Schiaparelli e o street pop da Coach, a febre dos acessórios animalescos demonstra fôlego diverso. Para além do impacto visual, cada grife explora simbolismos que vão de amuletos de sorte a críticas veladas ao minimalismo dominante.
Resta saber se o público manterá o apetite por tanta fantasia ou se o pêndulo da moda voltará ao rigor clean. Enquanto isso, vale acompanhar nossa newsletter para descobrir os próximos capítulos dessa fauna fashion que, por ora, segue solta na passarela.

