Star Trek costuma ser lembrada pelo tom otimista e pela mensagem de união entre povos, mas nem todos os capítulos da franquia seguiram viagem sem turbulências. Ao longo de seis décadas, sete episódios chegaram a ser vetados em diferentes países, seja por cenas consideradas fortes, temas políticos delicados ou simples desconforto cultural.
Hoje, todos eles já voltaram ao catálogo, o que permite avaliar não apenas a polêmica original como também o trabalho do elenco, direção e roteiristas que os tornaram tão marcantes – para o bem e para o mal.
Episódios que saíram do ar
Da Série Clássica a A Nova Geração, cada caso traz contextos próprios. A seguir, revisitamos os sete capítulos, analisando a condução criativa e o desempenho dos atores que ajudaram a escrever (ou reescrever) a história da televisão.
“Miri” – TOS, 1ª temporada
Roteirizado por Adrian Spies e dirigido por Vincent McEveety, “Miri” exigiu de William Shatner um equilíbrio entre autoridade e compaixão ao lidar com crianças traumatizadas por uma praga. Kim Darby, no papel-título, entrega inocência e desespero numa medida que amplifica o clima inquietante.
A maquiagem que mostra lesões crescendo no rosto da tripulação impressionava para 1966 e foi um dos fatores que levaram a BBC a vetar reprises nos anos 70. A câmera de McEveety explora closes prolongados, reforçando a sensação de claustrofobia quando a Enterprise percebe que também está contaminada.
Apesar do suspense, o roteiro reserva momentos de ternura entre Kirk e Miri, mostrando como a série buscava luz mesmo dentro da narrativa sombria. Essa dualidade mantém o episódio relevante.
“Patterns of Force” – TOS, 2ª temporada
Escrito por Paul Schneider e sob direção de Vincent McEveety, o capítulo coloca Shatner e Leonard Nimoy diante de um regime inspirado no nazismo. A produção não economiza nos uniformes e símbolos, algo que chocou a TV alemã e resultou em banimento até 1995.
Nimoy, como Spock, adiciona camadas de ironia científica ao expor a lógica perversa daquele governo, enquanto Shatner segura a narrativa com indignação contida. A ambientação ousada reforça o alerta político proposto pelo criador Gene Roddenberry.
O episódio é um exemplo de como direção de arte e figurino podem potencializar uma crítica social, ainda que isso tenha custado décadas fora do ar em parte da Europa.
“Plato’s Stepchildren” – TOS, 3ª temporada
Roteiro de Meyer Dolinsky e direção de David Alexander colocam a tripulação nas mãos de telepatas hedonistas. Nichelle Nichols e Shatner protagonizam um dos primeiros beijos inter-raciais da TV americana, momento que ofuscou a recepção morna ao roteiro.
A BBC justificou o veto pela tortura psicológica e física mostrada, mas é no trabalho corporal dos atores que o capítulo ganha força: a coreografia de humilhações imposta a Kirk, Spock e Uhura exige entrega total do elenco, refletindo o poder absoluto dos platônios.
Mesmo irregular, o episódio demonstra como cenários minimalistas e atuações intensas podem sustentar um roteiro que flerta com o teatro experimental.
“The Empath” – TOS, 3ª temporada
John Erman dirige e Joyce Muskat assina o roteiro desta história quase abstrata, filmada em cenários escuros que lembram um palco vazio. A atmosfera depende do trio Shatner, Nimoy e DeForest Kelley, forçado a expressar dor física e moral sob luzes pontuais.
Imagem: Internet
Questões filosóficas sobre sacrifício e compaixão tentam emergir, mas a repetição de cenas de tortura levou a BBC a cortar o episódio por anos. A atuação silenciosa de Kathryn Hays como Empath faz o público sentir cada ferimento refletido em seu corpo.
A direção aposta em longos silêncios, o que torna o clímax mais impactante – e explica por que muitos pais britânicos acharam o conteúdo pesado para crianças.
“Whom Gods Destroy” – TOS, 3ª temporada
Dirigido por Herb Wallerstein e escrito por Lee Erwin, o episódio brilha principalmente pela performance de Yvonne Craig como a Orion Marta. Sedutora e ameaçadora, ela domina a tela numa dança icônica que acabou sendo considerada sensual demais para a BBC nos anos 70.
Shatner divide espaço com Steve Ihnat, que interpreta o capitão Garth de forma histriônica, quase shakespeariana. O duelo de egos entre Garth e Kirk sustenta o roteiro, que discute loucura e poder.
O design do asilo e o uso de cores vibrantes contrastam com o tema sombrio, reforçando a assinatura visual da Série Clássica. Só em 1994 o público britânico teve acesso completo ao capítulo.
“Conspiracy” – TNG, 1ª temporada
Na transição para A Nova Geração, o roteirista Tracy Tormé entrega uma trama de paranoia comandada pelo diretor Cliff Bole. Patrick Stewart, como Picard, exibe firmeza e surpresa genuína conforme descobre parasitas infiltrados em almirantes da Frota Estelar.
O ponto alto – e motivo do veto inicial da BBC – é a explosão gráfica da cabeça de um oficial, sequência que rendeu o Emmy de Maquiagem a Michael Westmore. A cena, mais próxima do horror que da ficção otimista, marcou o tom ousado que TNG às vezes abraçava.
Jonathan Frakes e Gates McFadden têm participações contidas, deixando Stewart carregar o suspense. A direção mantém ritmo acelerado, algo raro na primeira temporada da série.
“The High Ground” – TNG, 3ª temporada
Escrito por Melinda Snodgrass e dirigido por Gabrielle Beaumont, este capítulo coloca a Dra. Crusher, de Gates McFadden, no centro ao ser sequestrada por um grupo terrorista. A atriz entrega um confronto ético convincente, questionando o líder interpretado por Richard Cox.
A participação de Brent Spiner como Data é decisiva: sua frase sobre a “Unificação Irlandesa de 2024” levou a BBC e emissoras irlandesas a suspender a exibição até 1992. O roteiro procura discutir se a violência pode ser justificada pela causa, mas carece de sutileza.
Mesmo assim, a direção de Beaumont cria tensão ao intercalar negociações diplomáticas e cenas de batalha, destacando a química entre McFadden e Stewart. A BBC só liberou a versão sem cortes em 2007.
Para fãs que revisitam a franquia em streaming, esses sete capítulos mostram como clássicos da TV podem refletir as ansiedades de suas épocas – e como boas atuações atravessam décadas. Hoje, todos estão disponíveis, permitindo conhecer a ousadia que manteve Star Trek na vanguarda da ficção científica.

