Heróis de capa e máscara não são exclusividade dos estúdios hollywoodianos. A televisão sul-coreana tem usado superpoderes para falar de família, romance e até crítica social, sempre com produções de alto nível técnico.
Da aventura adolescente recheada de efeitos visuais à comédia romântica que mistura investigação policial, selecionamos dez K-dramas que exploram o subgênero de heróis sob diferentes ângulos — todos com elencos afiados, roteiros sólidos e direção cuidadosa.
Superpoderes coreanos que conquistam a telinha
Cada título abaixo se destaca por alguma escolha criativa: seja pelo protagonismo feminino, pela ambientação em tribunais ou pela mistura inusitada de comédia e suspense. Confira como atores, roteiristas e diretores transformaram histórias de poderes em narrativas cativantes.
Moving
Dirigido por Park In-je e escrito por Kang Full, criador do webtoon original, Moving se tornou a maior vitrine de super-heróis da Disney+ na Coreia. Lee Jung-ha, Go Youn-jung e Kim Do-hoon interpretam adolescentes que herdam habilidades secretas dos pais, ex-espiões vividos com peso dramático por Ryu Seung-ryong, Han Hyo-joo e Zo In-sung.
O equilíbrio entre cenas de ação coreografadas e momentos intimistas é mérito da direção, que utiliza câmera nervosa nos combates e planos estáticos nos diálogos familiares. Os efeitos especiais são discretos, mas convincentes, garantindo verossimilhança aos saltos sobre-humanos e voos rasantes.
O roteiro costura flashbacks para revelar como cada dom foi passado de geração em geração, criando dinamismo narrativo. A química do elenco juvenil, especialmente nas cenas de escola, humaniza os poderes e reforça a expectativa por uma segunda temporada já anunciada, mas ainda sem data.
He Is Psychometric
Na série comandada pelo diretor Kim Byung-soo, Park Jin-young entrega vulnerabilidade ao órfão Lee Ahn, que acessa memórias via toque. Ao lado de Shin Ye-eun, cuja policial Jae-in equilibra leveza e coragem, o ator dosa humor e trauma sem cair no melodrama.
Roteiristas Yang Jin-ah e Yoon Kyung-ah apostam em estrutura de caso da semana para exibir as leituras psicométricas, enquanto avançam um mistério maior sobre o incêndio que matou os pais do protagonista. A trilha pop sublinha a atmosfera jovem que faz o drama flertar com a comédia romântica.
Visualmente, a escolha de cores vibrantes nas sequências de visão do passado contrasta com a fotografia fria das investigações policiais, recurso que ajuda o público a diferenciar realidade e lembrança. O resultado é um “super-rom-com” leve, ideal para quem procura poderes sem abrir mão de suspiros.
The Uncanny Counter
Yoo Sun-dong dirige essa adaptação do webtoon de Jang Yi, combinando pancadaria sobrenatural e sentimento de equipe. Jo Byeong-kyu vive So Mun, estudante que recebe superforça após ser possuído por um espírito justiceiro, formando trio carismático com Kim Se-jeong e Yoo Jun-sang.
A série usa cozinha de noodle shop como fachada para caçar demônios, e o design de produção transforma o espaço num quartel-general aconchegante. Nas cenas de luta, cabos e dublês garantem agilidade, enquanto efeitos práticos reforçam a fisicalidade dos confrontos.
O roteiro de Yeo Ji-na distribui pistas sobre a origem dos poderes em doses semanais, mantendo suspense até o fim. Ao mesclar humor pastelão e emoção genuína, The Uncanny Counter prova que é possível falar de exorcismo e amizade na mesma frase sem soar forçado.
A Girl Who Sees Smells
Com direção de Baek Soo-chan, o drama entrega à atriz Shin Se-kyung a missão de tornar crível a habilidade sinestésica de “enxergar” aromas. Ela colore a protagonista Oh Cho-rim com ingenuidade e coragem, enquanto Park Yoo-chun interpreta o detetive Moo-gak, que perdeu o olfato e a irmã num crime cruel.
A fotografia usa partículas luminosas para representar cheiros, criando estética de fantasia que não prejudica o tom policial. O roteiro de Lee Hee-myung equilibra pista a pista até identificar o serial killer, sempre aproveitando o contraste entre sensibilidade e insensibilidade dos protagonistas.
O romance cresce organicamente a partir da parceria nas investigações, fugindo de clichês de “damsel in distress”. Essa escolha valoriza a atuação de Shin, que carrega boa parte da trama nos ombros, provando que superpoder também é matéria-prima para comédia romântica.
Strong Girl Bong-soon
Ícone do gênero, a produção dirigida por Lee Hyung-min catapultou Park Bo-young como heroína de força sobre-humana. Seu timing cômico transforma a superpotência em fonte de gags visuais, enquanto Park Hyung-sik adiciona carisma como o CEO ameaçado que a contrata como guarda-costas.
A roteirista Baek Mi-kyung injeta comentários sutis sobre empoderamento feminino, mostrando as consequências morais de usar poder para o bem ou para a vaidade. Quando Bong-soon enfrenta vilões locais, a câmera privilegia a expressão facial da atriz, destacando culpa ou orgulho a cada soco.
Mesmo com estética de webtoon, a série não descuida da tensão: o sequestro em série que assombra o bairro fornece urgência dramática. Resultado: uma comédia romântica de ação que influenciou sucessores e ganhou spin-off anos depois.
Imagem: Internet
The Atypical Family
O diretor Jo Hyun-tak entrega abordagem inusitada sobre perda de habilidades. Jang Ki-yong lidera elenco como Bok Gwi-ju, ex-viajante no tempo que luta contra depressão. Cada membro da família enfrenta limitações modernas — insônia, dependência digital — que bloqueiam dons outrora lendários.
O texto de Joo Hwa-mi aborda saúde mental sem didatismo, usando metáforas de poderes enferrujados para discutir identidade. A química de Jang com Chun Woo-hee, personagem que instiga a recuperação da família, sustenta sequências emotivas sem apelar ao melodrama excessivo.
Visualmente, a direção de arte usa casa decadente como reflexo da perda de magia. Quando lampejos de poder retornam, a paleta ganha cor, indicando esperança. É um drama íntimo que subverte expectativas de origem heroica para falar de reinvenção.
I Can Hear Your Voice
Clássico de 2013, dirigido por Jo Soo-won, põe Lee Jong-suk no papel de Soo-ha, telepata que ajuda advogados em julgamentos. A atuação do ator equilibra juventude apaixonada e trauma, enquanto Lee Bo-young brilha como defensora cética que aprende a confiar no sobrenatural.
Os roteiros de Park Hye-ryun misturam tribunal e romance, usando audições de pensamento como recurso de suspense. A série acumula 20 prêmios devido à habilidade de prender o público entre reviravoltas jurídicas e tensão emocional.
A fotografia aposta em closes durante leituras mentais, enfatizando nuances faciais. Mesmo uma década depois, o drama continua referência para produções que buscam integrar superpoder e procedimental.
Memorist
Kim Hwi dirige o thriller estrelado por Yoo Seung-ho, detetive capaz de acessar memórias por toque. O ator entrega energia impaciente que contrasta com a racionalidade da criminóloga vivida por Lee Se-young. A dupla sustenta ritmo frenético sem comprometer credibilidade.
O roteiro de Ahn Do-ha e Hwang Ha-na não deixa o caso de serial killer ofuscar o estudo de personagem. Cada flash de lembrança é montado com cortes rápidos e paleta desbotada para diferenciar do presente, recurso que evita confusão visual.
Ao integrar poder e investigação de forma orgânica, Memorist foge do formato “monstro da semana” e constrói trama coesa do início ao fim, tornando-se exemplo de como suspense e fantasia podem elevar mutuamente o gênero.
Behind Your Touch
Sob direção de Kim Seok-yoon, Han Ji-min encarna veterinária de vila interiorana que lê o passado de pessoas e animais ao tocá-los. O carisma da atriz faz o público embarcar na premissa inusitada, enquanto Lee Min-ki diverte como policial indignado por ter sido transferido para o campo.
A roteirista Lee Nam-kyu acrescenta toques de humor rural que suavizam a escalada de crimes na pequena cidade. Quando assassinatos começam, a série alterna tons sem perder coerência, mérito da montagem que intercala cenas de granja com perseguições noturnas.
O uso de animais em sequências de poder garante identidade própria ao drama, que renova o conceito de psicometria e reforça a versatilidade do elenco, em especial da protagonista.
The Wonderfools
Lançado em maio de 2026, o título dirigido por Lee Jong-pil reimagina grupo de párias que ganha poderes ao cair em resíduo tóxico. Park Eun-bin lidera trio de azarões ao lado de Im Seong-jae e Choi Dae-hoon, conferindo doçura e irreverência a cenas de treinamento desastroso.
O roteiro de Kim Eun-hee injeta comentário social ao explorar empresas que despejam poluentes, enquanto cria vilão de organização secreta personificado por Cha Eun-woo, cuja presença misteriosa adiciona camadas à narrativa.
Sequências de ação usam efeitos práticos e digitais em igual medida, mas é a direção de atores que brilha: cada personagem evolui de piada local a defensor da comunidade, garantindo final catártico que já gera expectativa de novas produções no mesmo universo.
Dos dramas mais intimistas às epopeias cheias de efeitos, a televisão coreana prova que ainda há muito a explorar no gênero de super-herói. Escolha o seu título favorito, prepare a pipoca e boa maratona!

