O quarto episódio da segunda temporada de Daredevil: Born Again chegou ao Disney+ entregando uma combinação afiada de ação, nostalgia para quem acompanhou a fase Netflix e uma coleção de easter eggs que dialogam com o restante do MCU. Mesmo com tantas piscadelas, o capítulo se sustenta graças ao trabalho consistente do elenco principal e a uma direção que equilibra violência crua e intimidade emocional.
Entre retornos a lugares emblemáticos, citações a heróis ausentes e símbolos que remetem a Stan Lee, o roteiro encontra espaço para aprofundar os conflitos de Matt Murdock, a escalada de poder de Wilson Fisk e a ameaça imprevisível que é Dex Poindexter. Veja, a seguir, como cada elemento se alinha para manter a série entre as produções mais elogiadas da Marvel na TV.
Como o episódio 4 eleva o nível da temporada
O roteiro aposta em três frentes principais: o drama pessoal dos protagonistas, a expansão de conexões com outros cantos do universo Marvel e a exibição de sequências de luta que exploram a habilidade física do elenco. A fotografia continua saturada em tons azulados sempre que Bullseye entra em cena, recurso que reforça a identidade visual inaugurada na temporada passada.
A troca constante entre cenas de intimidade — como o reencontro de Matt com a própria fé na Clinton Church — e momentos de violência explícita — vide o massacre no Bel Aire Diner — exige do elenco nuances que sustentem a credibilidade do enredo. Esse equilíbrio é mérito conjunto da direção e do trabalho de atores que conhecem profundamente seus personagens.
Charlie Cox de volta ao centro do ringue
Charlie Cox mantém o nível de entrega física que o tornou referência em coreografias de luta dentro do MCU televisivo. No ginásio Fogwell’s Gym, sua postura corporal reproduz a disciplina de um boxeador experiente, lembrando a infância do personagem sem precisar recorrer a longos flashbacks. O ator também se destaca nas cenas silenciosas: quando Matt segura o amuleto de White Tiger ou ajoelha-se no confessionário, um simples fechar de olhos comunica dúvida, culpa e determinação.
No campo dramático, Cox explora o desgaste emocional de um herói que questiona a utilidade da própria cruzada. A sequência em que ele alerta Angela Del Toro sobre a “responsabilidade” de vestir o manto de White Tiger demonstra o peso que o personagem carrega ao ver outros jovens entrarem no front. É um diálogo que ecoa os princípios de poder e responsabilidade popularizados em outra franquia da casa, reforçando a vontade dos roteiristas de aproximar Demolidor de futuros aliados.
O texto oferece a Cox falas curtas, quase sempre carregadas de subtexto religioso. Essa economia de palavras favorece o ritmo de edição ágil, permitindo que a performance seja comunicada tanto pelo corpo quanto por breves expressões faciais, recurso que o ator domina desde a primeira temporada.
Vincent D’Onofrio impõe respeito como Wilson Fisk
Vincent D’Onofrio evidencia mais uma vez por que seu Rei do Crime segue como um dos vilões mais complexos da Marvel. A escolha de ambientar o evento beneficente em Fogwell’s Gym não apenas resgata memórias de Matt, mas coloca Fisk no palco que pertencia ao pai do Demolidor — iniciativa que D’Onofrio usa para transmitir domínio sobre a narrativa. Seu tom de voz baixo, quase paternal, contrasta com a brutalidade que o personagem é capaz de exibir quando contrariado.
A interação com Vanessa, apelidada aqui de “Europa”, reforça a dinâmica de poder do casal. O texto compara Fisk ao “Touro Branco” da mitologia grega, metáfora que o ator encarna ao alternar do cavalheirismo à ferocidade, dependendo da circunstância. A performance sustenta o paralelo, evitando caricaturas e mantendo o vilão sempre à beira de explodir.
Durante a conversa com o governador, a composição de cena inclui o selo do Estado de Nova York e o lema “Excelsior” ao fundo. Além de ecoar o espírito de Stan Lee, o detalhe reforça que Fisk já não atua apenas nos becos de Hell’s Kitchen, mas na arena política — território onde D’Onofrio injeta sutileza para demonstrar ambição crescente.
Wilson Bethel imprime caos a Dex Poindexter/Bullseye
O episódio faz de Dex o fio condutor da ação, e Wilson Bethel responde entregando frieza meticulosa. A cena inicial, com o personagem pedindo um milk-shake de banana no Bel Aire Diner, soa inocente até que o banho de sangue começa. A direção opta por planos fechados na expressão quase vazia de Bethel, sublinhando a ideia de que a violência é, para ele, rotina banal.
Quando Dex invoca o nome de Frank Castle ao ligar para a AVTF, Bethel adiciona uma pitada de sarcasmo que denuncia consciência plena da própria maldade. Após eliminar todos os agentes, o assassino declara ser “um dos mocinhos” — fala que remete ao período em que Bullseye vestiu o uniforme do Gavião Arqueiro nos quadrinhos. A frieza com que o ator solta essa frase, em contrato com o cenário de carnificina, ressalta o desequilíbrio mental do personagem.
Imagem: Internet
A fotografia azulada volta a tomar conta do quadro em cada aparição de Dex, distinguindo-o visualmente dos demais antagonistas. Essa escolha estética conversa bem com a atuação de Bethel, que evita arroubos e se apoia em microexpressões e movimentos precisos para construir tensão constante.
Angela Del Toro e a estreia da White Tiger
O episódio marca a transição de Angela Del Toro para heroína em tempo integral. A atriz traz contenção às cenas ao lado de Matt, sobretudo quando ele questiona se ela compreende a “responsabilidade” do amuleto. A troca reforça o legado de heróis do bairro, conectando-se ao mote de grandes poderes já explorado em outras produções da Marvel.
Mesmo com tempo limitado, a personagem ganha relevância ao aceitar juntar-se à resistência contra Fisk. O roteiro sugere que Angela funcionará como aliada tática de Daredevil, e a atuação cria expectativa sem entregar todas as cartas. Sempre que segura o amuleto, a atriz usa olhar focado para indicar ansiedade e senso de dever, preparando terreno para sequências futuras.
A introdução de White Tiger amplia a diversidade de vigilantes no MCU televisivo, e a direção ajuda a destacar esse momento ao enquadrar o close do amuleto em contraste com a iluminação quente do escritório de Matt. O detalhe visual sublinha a passagem simbólica de bastão entre gerações de defensores de Hell’s Kitchen.
Roteiro e direção: precisão cirúrgica nos easter eggs
Os roteiristas mantêm ritmo veloz sem sacrificar desenvolvimento de personagem. Referências, como a presença do Fogwell’s Gym, são usadas para aprofundar temas — no caso, o legado familiar de Matt. Já o uso de “Excelsior” como pano de fundo para o poder político de Fisk cumpre função dupla: homenageia Stan Lee e indica que a ambição do vilão extrapola as ruas.
Outro exemplo está no olhar atento à coerência visual. A troca do tradicional vermelho pelo fundo azul no logotipo da Marvel na abertura reforça a aura gélida que envolve as aparições de Bullseye, provando que a equipe criativa pensa na experiência do espectador desde o primeiro segundo.
A direção de ação adota câmera próxima e cortes curtos, recurso que intensifica a brutalidade sem perder clareza. Isso fica evidente no massacre do Bel Aire Diner, onde cada disparo de Dex é rastreado pelo olhar do público, criando sensação de urgência. Sem recorrer a excesso de cortes, a montagem deixa transparecer o trabalho físico do elenco e dos dublês.
Conclusão do capítulo e ganchos para o futuro
Ao encerrar com Matt descobrindo o interesse de Dex por Sister Maggie, o episódio planta sementes para conflitos que prometem aliar drama familiar e ameaça letal. A breve menção de que Maggie está em retiro em Roma conecta Born Again à continuidade estabelecida na época Netflix, reforçando a coesão do universo serializado.
Combinando interpretações sólidas, direção segura e roteiro repleto de detalhes que respeitam a trajetória dos personagens, Daredevil: Born Again prova, mais uma vez, por que se mantém no topo das discussões entre fãs da Marvel.

