O britânico Anthony Head, falecido aos 72 anos, construiu uma filmografia televisiva que vai muito além do bibliotecário Rupert Giles, de Buffy, e do magnata Rupert Mannion, de Ted Lasso. Durante mais de quatro décadas, o ator transitou por gêneros diversos, sempre imprimindo carisma e presença cênica.
Da comédia de esquetes à fantasia épica, Head colaborou com roteiristas consagrados e diretores de peso, deixando um rastro de personagens que merecem ser redescobertos. A seguir, revisitamos dez atuações pouco lembradas que evidenciam sua versatilidade.
Da comédia ao drama: por dentro dos papéis menos lembrados
Entre 1990 e 2020, Head aceitou convites que iam de adaptações literárias clássicas a ficções científicas ousadas. Em cada produção, o ator adicionou camadas inesperadas aos tipos que assumiu, mostrando porque era requisitado tanto por showrunners de primeira viagem quanto por veteranos.
Motherland (2016-2022)
No sitcom criado por Sharon Horgan, Graham Linehan e Holly Walsh, Head aparece como Bill, marido da festeira Meg e pai de cinco crianças. Sob direção de Juliet May, ele injeta afeto e humor em cenas que contrastam com o caos parental retratado na série.
Seu timing cômico transforma as gafes românticas do personagem em alívio bem-vindo, reforçando o tom agridoce do roteiro. Bill funciona como contraponto à competitividade dos outros pais, ajudando a equilibrar a narrativa.
Embora a participação seja pontual, a química com Tanya Moodie (Meg) destaca a habilidade de Head para criar vínculos críveis em pouco tempo de tela, algo que marcou toda a sua carreira.
The Split (2018)
Na elogiada série jurídica da BBC escrita por Abi Morgan, Head vive Oscar, pai da protagonista Hannah Stern (Nicola Walker). O reencontro dos dois, conduzido pela diretora Jessica Hobbs, é carregado de emoção e expõe mágoas familiares que espelham os divórcios tratados no escritório de advocacia.
Head dosa vulnerabilidade e arrogância na medida certa, tornando Oscar um homem falho, porém empático. Sua presença impulsiona o arco dramático da primeira temporada e aprofunda o conflito central.
O episódio reforça como o ator domina cenas de confronto íntimo, recorrendo a sutilezas faciais para transmitir décadas de distância entre pai e filha.
Doctor Who – “School Reunion” (2006)
Dirigido por James Hawes e roteirizado por Toby Whithouse, o capítulo coloca Head como o sinistro diretor de colégio Mr. Finch. A performance caminha entre a polidez britânica e o terror explícito, mantendo o público em alerta.
Fã declarado da franquia, o ator aproveita cada segundo, alternando sorrisos cordiais e ameaças geladas. A química com David Tennant (Décimo Doutor) acrescenta intensidade ao episódio, considerado um dos melhores da era moderna da série.
Anos depois, Head voltaria ao universo da série em vozes e narrativas, confirmando sua devoção à mitologia de Gallifrey.
The Canterville Ghost (2021)
Na adaptação do conto de Oscar Wilde, Head incorpora Sir Simon de Canterville, o fantasma que assombra uma família recém-chegada à propriedade. Sob direção de Paul Gibson, o ator se diverte com o tom farsesco do texto.
Entre sustos caricatos e confissões melancólicas, ele equilibra exagero teatral e fragilidade, ofertando profundidade a um personagem que poderia se limitar ao humor slapstick.
A série recebeu críticas mistas por seus efeitos modestos, mas a atuação de Head foi unanimemente apontada como trunfo, provando seu talento para “roubar cena”.
Manchild (2002-2003)
No dramedy da BBC criado por Nick Fisher, Head é James, crítico de arte pedante e hedonista. Dirigida por David Kerr, a produção acompanha quatro amigos de meia-idade enfrentando crises existenciais.
Head explora a comicidade absurda de um homem que se julga intelectualmente superior, mas tropeça em inseguranças banais. Sua parceria com Nigel Havers e Don Warrington rende diálogos afiados e situações embaraçosas.
A breve duração – 16 episódios – não impediu que o ator imprimisse uma marca: a de transformar pomposidade em vulnerabilidade, humanizando figuras inicialmente irritantes.
Imagem: Internet
Vanity Fair (2018)
Na minissérie da ITV baseada no clássico de William Makepeace Thackeray, Head vive Lord Steyne, um aristocrata decadente que corteja Becky Sharp (Olivia Cooke). A direção de James Strong sublinha a opulência visual enquanto escancara a hipocrisia da alta sociedade vitoriana.
Head adota gestos afetados e olhar predatório para ilustrar um poder sustentado mais pela pose do que pela ação. Cada aparição dele intensifica o dilema moral de Becky, movendo a trama sem pressa.
O roteiro de Gwyneth Hughes oferece diálogos cortantes, e o ator responde com entonações calculadas, convertendo Lord Steyne em ameaça sutil e constante.
The Stranger (2020)
No thriller da Netflix adaptado de Harlan Coben e dirigido por Daniel O’Hara, Head interpreta Ed Price, pai mulherengo do protagonista Adam (Richard Armitage). A tensão entre os dois ganha densidade graças à atuação contida de Head.
Ele usa silêncios e olhares para sugerir segredos inconfessáveis, reforçando o clima de conspiração que move a minissérie. Essa escolha realça o contraste entre a fachada de boa vida e a culpa latente do personagem.
Para quem quiser relembrar detalhes, a nossa resenha completa de The Stranger aprofunda as camadas do enredo.
VR.5 (1995)
Produzido pela Fox e criado por Jeannine Renshaw, o sci-fi cult acompanha Sydney Bloom (Lori Singer) em missões dentro da realidade virtual. Head surge como Oliver Sampson, handler da protagonista e elo com a sombria organização Committee.
Numa era anterior à popularização da internet doméstica, o ator traduz a paranoia tecnológica do roteiro, alternando pragmatismo e mistério. A direção de Michael Katleman valoriza seus diálogos enigmáticos, que impulsionam a mitologia da série.
Mesmo cancelada após dez episódios, VR.5 permanece relevante a quem aprecia ficção científica noventista, e Head é peça-chave nesse status de obra-cult.
Little Britain (2003-2006)
No programa de esquetes criado por Matt Lucas e David Walliams, Head encarna o primeiro-ministro Michael Stevens, alvo da devoção exagerada do assessor Sebastian. Sob direção de Steve Bendelack, ele mantém semblante sério enquanto o humor beira o absurdo.
A escolha de interpretação é calculada: ao não reagir às investidas do assistente, Head amplifica o constrangimento, fazendo da skit uma das mais lembradas do ciclo original da BBC.
Apesar das polêmicas que envolvem o show hoje, a performance serve de manual sobre como o “straight man” pode potencializar o riso em esquetes satíricas.
Merlin (2008-2012)
No épico de fantasia da BBC, Head vive Uther Pendragon, pai do futuro rei Arthur. Criada por Julian Jones e Johnny Capps, a série mescla aventura e drama de corte, e a direção de James Hawes dá escala às batalhas e intrigas.
O ator equilibra a imagem de governante tirânico com a de pai superprotetor, oferecendo camadas ao antagonismo. Sua despedida antes do quinto ano acentua o impacto emocional do arco final.
O legado da produção permanece forte; prova disso é o constante debate sobre o impacto de Merlin na TV britânica moderna – discussão que invariavelmente cita a solidez do trabalho de Head.
Do terror juvenil à sátira política, Anthony Head demonstrou alcance incomum, convertendo papéis secundários em momentos essenciais. Rever essas dez séries é, portanto, revisitar facetas distintas de um intérprete que nunca teve medo de experimentar.

