O capítulo derradeiro de The Boys dividiu opiniões, mas deixou claro que a força da série sempre esteve nas interpretações arrebatadoras e na ousadia do texto de Eric Kripke e sua sala de roteiristas. Num episódio que cruzou violência gráfica com drama íntimo, cada personagem recebeu um ponto-final muito específico.
- Final de The Boys: quem brilhou e quem decepcionou
- Homelander – Antony Starr transforma o deus em mendigo
- Billy Butcher – Karl Urban segue violento até o último suspiro
- Hughie & Annie – Jack Quaid e Erin Moriarty abraçam o clichê
- Kimiko – Karen Fukuhara merecia mais que um café em Paris
- Mother’s Milk – Laz Alonso encontra redenção familiar
- Sage – porta de saída apressada para um cérebro brilhante
- Ashley Barrett – Colby Minifie vira punchline perfeita
- The Deep – Chace Crawford devorado pela própria natureza
A seguir, destrinchamos como o elenco principal se despediu, avaliando o desempenho dos atores, as escolhas de direção e o que funcionou (ou não) na página final desse fenômeno do Prime Video.
Final de The Boys: quem brilhou e quem decepcionou
Da redenção improvável ao castigo poético, o roteiro distribuiu destinos que vão de tragicômicos a satisfatórios. A câmera de Philip Sgriccia, veterano da série, alternou closes desconfortáveis e planos abertos sangrentos para sublinhar cada virada. Confira personagem a personagem.
Homelander – Antony Starr transforma o deus em mendigo
Antony Starr encerra sua jornada com um tour de force. Privado de poderes, Homelander se vê reduzido a um homem comum, cena que Starr preenche com respiradas curtas, olhos vidrados e voz embargada. A queda pública, orquestrada num set iluminado por holofotes que lembram ringue de boxe, ressalta a ironia: o herói mais midiático termina sob o mesmo foco que sempre buscou, mas agora implorando clemência.
O roteiro entrega o que prometeu desde o piloto: desmontar o mito. Ao colocar Homelander ajoelhado diante de Billy Butcher, Kripke expõe a fraqueza moral que sempre existiu sob a capa. A direção não economiza na duração do take, segurando o close até o espectador sentir o desconforto do personagem.
O ator usa microexpressões para percorrer raiva, pânico e negação em segundos, lembrando por que foi o grande nome do elenco. É um final cruel, porém coerente, realçando o comentário da série sobre poder e ego.
Billy Butcher – Karl Urban segue violento até o último suspiro
Karl Urban manteve a energia anárquica que definiu Butcher. No clímax, o neozelandês dosa sarcasmo e melancolia, sugerindo que a vitória sobre Homelander não trouxe paz alguma. A câmera acompanha seu andar pesado pelos corredores de Vought Tower, criando paralelo visual com a primeira temporada.
O momento em que hesita antes de liberar o vírus é dirigido com tensão crescente: iluminação fria, trilha baixíssima e silêncio opressor. Urban aproveita para mostrar o cansaço físico e emocional, num close que revela suor e olhos marejados.
Quando Hughie dispara o tiro fatal, a queda de Butcher parece inevitável. A escolha dramática reforça o tema de ciclos de violência e evidencia a entrega de Urban, que se despede mantendo o personagem fiel até o fim.
Hughie & Annie – Jack Quaid e Erin Moriarty abraçam o clichê
Jack Quaid retorna ao ponto de partida, agora como dono da velha loja de eletrônicos. O ator comunica alívio e leveza, mas o roteiro o força a dar uma volta completa que soa acomodada. Erin Moriarty, por sua vez, usa um sorriso contido para anunciar a gravidez de Starlight, tentativa de fechar o arco com esperança.
A direção opta por luz suave e cores quentes, enquadrando o casal em planos médios que lembram sitcom, o que provoca choque tonal depois do caos anterior. Moriarty consegue transmitir vulnerabilidade quando menciona o nome “Robin” para a filha, dando peso emocional ao gesto.
Ainda assim, o desfecho escorrega na convenção “bebês ever after”. Falta ousadia ao texto, que, nesta dupla, prefere segurança a conflito, contrastando com a audácia mostrada em outras tramas.
Kimiko – Karen Fukuhara merecia mais que um café em Paris
Responsável pelo golpe que retirou os poderes de Homelander, Kimiko some num epílogo breve. Karen Fukuhara, porém, extrai profundidade de silêncios: enquanto degusta um biscoito francês, seus olhos revelam saudade de Frenchie e satisfação de missão cumprida.
A cena, conduzida sem diálogos, destaca a habilidade corporal da atriz, que sempre comunicou a essência da personagem por gestos mínimos. A fotografia usa luz natural e tons pastel, conferindo ar de postal – bonito, mas simplista.
Considerando o peso de sua ação no clímax, o roteiro lhe oferece pouco espaço. Falta uma catarse maior que reconheça a trajetória de trauma e superação que Fukuhara carregou com tanta honestidade nas cinco temporadas.
Imagem: Internet
Mother’s Milk – Laz Alonso encontra redenção familiar
Laz Alonso ganha um epílogo caloroso, selando a adoção de Ryan e o reatamento com Monique. O ator sempre equilibrou firmeza e ternura, e aqui reforça isso, abraçando Ryan com sorriso contido que esconde lágrimas.
Embora o momento apareça quase em voice-over, Alonso transmite segurança paternal. A direção prefere mostrar o lar reconstruído em plano aberto, com cores terrosas que sugerem estabilidade, contrastando com os azuis frios do esconderijo dos Boys.
O encerramento rápido deixa gostinho de cena perdida, mas funciona como conclusão de arco para um personagem cuja bússola moral jamais se desviou.
Sage – porta de saída apressada para um cérebro brilhante
Sage passa de peça-chave na derrota de Homelander a alívio cômico. A atriz (Susan Heyward) troca olhar de assombro por sorriso bobo tão logo perde a super-inteligência, revelando versatilidade cênica.
A decisão do roteiro de enviá-la a Orlando depois da “cura” é piada óbvia sobre a Flórida. Embora divertida, diminui a relevância de uma mente que conduziu estratégias cruciais. A cena é dirigida em tom farsesco, com enquadramentos amplos e música leve.
Heyward faz o possível para humanizar a transição, mas o texto não lhe oferece profundidade. Sai de cena cedo, deixando sensação de potencial desperdiçado.
Ashley Barrett – Colby Minifie vira punchline perfeita
Colby Minifie sempre navegou entre ambição descontrolada e pânico absoluto. Na coletiva em que tenta controlar a narrativa após a morte de Homelander, a atriz alterna frases atropeladas e caretas nervosas, arrancando risadas amargas.
O corte seco para a personagem sendo arrastada pelo FBI, cabelo desgrenhado e microfone ainda na mão, é direção humorística no timing exato. A montagem sustenta o impacto surpresa, convertendo anos de manipulação em um segundo de karma.
Ainda que simplifique uma figura complexa, o final é coerente com o tom satírico de The Boys, e Minifie demonstra, novamente, sua precisão cômica.
The Deep – Chace Crawford devorado pela própria natureza
Chace Crawford fecha o arco do herói aquático de forma poeticamente macabra. A expressão de incredulidade ao perceber que tubarões e polvos o cercam traduz a tragédia de quem nunca foi levado a sério nem pela própria fauna marinha.
O diretor usa câmera subjetiva dentro da água, reforçando sensação de claustrofobia. Crawford grita, debate-se e, por fim, some num mar tingido de vermelho, encerrando uma trajetória de lama em grande estilo gore.
É um fim irônico que condensa o humor negro da série: o homem-peixe encontra julgamento nos únicos seres que o estimavam. Crawford entrega fisicalidade e autoparódia, sustentando o tom tragicômico até o último frame.
Com esses desfechos, The Boys firma seu legado de misturar sátira política, violência gráfica e performances marcantes. O episódio final pode não agradar em todos os pontos, mas oferece momentos de atuação de alto calibre que reforçam por que a série se tornou um fenômeno global.

