Encerrar uma produção elogiada como The Boys não é tarefa simples. A 5ª temporada assumiu o risco, entregou um festival de baixas relevantes e encerrou trajetórias construídas desde o primeiro ano.
Mesmo dividindo opiniões sobre ritmo e escolhas de roteiro, o ciclo final amarrou pontas soltas e distribuiu momentos sangrentos que deixam o público sem fôlego — tudo embalado por atuações que mantêm o nível corrosivo característico da série.
Mortes que definem o adeus de The Boys
Abaixo, relembramos quem saiu definitivamente de cena e como cada despedida reforça o trabalho de roteiro, direção e elenco nesta reta derradeira. As imagens originais foram preservadas para contextualizar cada momento.
Billy Butcher
O anti-herói encerra sua caçada numa sequência que resume bem o estilo narrativo dos roteiristas: diálogo carregado de emoção seguido por violência crua. O ator entrega fragilidade rara ao personagem, contrastando com a brutalidade do desfecho em que Hughie é forçado a apertar o gatilho. O ritmo da direção prioriza close-ups para capturar a catarse final.
A cena, ambientada na Torre da Vought, evidencia a fotografia sombria típica da série, reforçando o isolamento de Butcher antes do disparo. O roteiro sustenta a tensão sem recorrer a trilha grandiosa, confiando na performance para amplificar o choque.
A escolha de concluir o arco com o personagem sangrando nos braços de seu “canário” fecha o ciclo iniciado na primeira temporada, seguindo a tônica mórbida que sempre cercou o protagonista.
Homelander
O embate na Casa Branca coloca em evidência o trabalho de câmera frenética, que alterna entre a superioridade do vilão e a vulnerabilidade imposta pela perda de poderes. A atuação transmite desespero crescente, culminando na humilhação pública antes do golpe de crowbar.
O roteiro constrói o clímax ao negar a redenção que o personagem tenta arrancar do público ao vivo. A direção explora a iluminação fria do salão presidencial, criando contraste entre o ambiente institucional e a barbárie escancarada.
Ao optar por Butcher como executor, os showrunners garantem coerência temática: a ideia de que o ciclo de violência fecha onde começou. A construção dramática reforça essa simetria.
Frenchie
Mesmo morrendo no penúltimo episódio, Frenchie protagoniza um dos momentos mais dolorosos da temporada. O roteiro o coloca em posição de sacrifício ao tentar atrasar Homelander com um experimento de urânio. A morte fora de quadro, mas sentida nos braços de Kimiko, destaca a força da dupla.
A direção opta por mostrar apenas o resultado, poupando o espectador de um assassinato explícito, mas focando na reação de Kimiko. Esse enquadramento reforça a camada emocional e valoriza o elenco de apoio.
A sequência também evidencia a trilha minimalista, que cede espaço ao som ambiente, aumentando o realismo da perda.
The Deep
Considerado o personagem mais patético, The Deep encontra ironia à beira-mar. A luta com Starlight mostra coreografia simples, mas eficaz, destacando a fragilidade moral do personagem. Quando a heroína lhe oferece redenção, o roteiro insere a recusa típica dele, selando seu destino nas garras de criaturas marinhas.
O efeito visual do ataque aquático mantém o tom satírico da série, contrastando violência gráfica com humor ácido. A direção explora planos abertos do oceano, ressaltando a pequenez do “herói” diante do próprio elemento.
A escolha narrativa de punir The Deep com aquilo que mais valoriza reforça o sarcasmo constante no texto da série.
A-Train
O arco de redenção de Reggie ganha peso na cena da floresta. A perseguição dirigida com precisão destaca a fotografia escura e o som abafado dos passos em alta velocidade. A decisão do personagem de não repetir tragédias anteriores cria suspense que antecede o estalo fatal no pescoço.
O diálogo final, em que A-Train expõe a dependência de Homelander dos próprios poderes, serve como prenúncio da queda do vilão. O roteiro utiliza a fala para amarrar tema e ironia sem soar expositivo.
O momento confirma a virada de A-Train em herói improvável, um dos pontos altos apontados por críticos sobre a evolução do elenco secundário.
Firecracker
A devota seguidora de Homelander morre de forma simbólica quando o ídolo esmaga sua cabeça contra uma estátua de águia. A cena usa iluminação quente, remetendo a templos religiosos, enquanto a performance evidencia o fanatismo quebrado em segundos.
Imagem: Internet
O roteiro sublinha a hipocrisia da personagem ao revelar seu conflito interno, aumentando o impacto da punição. A direção mantém a câmera estática para forçar o espectador a encarar a brutalidade sem cortes.
Assim, a série reforça a crítica à manipulação de massas por figuras messiânicas.
Black Noir II
O sucessor do ninja silencioso segue destino oposto ao quadrinho. A disputa mesquinha com The Deep gera alívio cômico, mas culmina em estrangulamento nos bastidores de um podcast. A direção investe em planos fechados para destacar a tensão claustrofóbica.
A cena evidencia o design de som, reduzido a respirações e arranhões no fio que tira a vida do supe. Essa opção intensifica o desconforto do público.
Ao transformar o assassinato em ajuste de contas fútil, o roteiro questiona a cultura de celebridade e ego que domina o universo da série.
Oh Father
Introduzido como aliado religioso de Homelander, o personagem serve de contraponto ao ceticismo de Hughie. O duelo termina com criatividade: um amordaçador especial que detona o próprio poder sônico do vilão, explodindo sua cabeça.
A direção aposta em enquadramento lateral que esconde o impacto até o último segundo, garantindo efeito de surpresa. A maquiagem prática reforça o gore característico da produção.
A cena destaca a atenção dos roteiristas a detalhes plantados antes, como o acessório comprado por Ashley, recompensa para quem acompanha a série atentamente.
Terror
O cachorro de Butcher representa um dos poucos afetos genuínos do personagem. Sua morte pacífica, fora da ação principal, gera respiro emocional na trama. A direção enquadra o rosto do protagonista em plano médio, evitando exagero melodramático.
No roteiro, a perda funciona como gatilho que empurra Butcher de volta à missão suicida, justificando escolhas posteriores. O momento confirma a habilidade da série em equilibrar carnificina e sentimento.
A breve despedida do animal dialoga com outras mortes de bichos ao longo da série, tema recorrente na crítica social do programa.
Presidente Steven Calhoun
Mesmo figurando como líder apenas no papel, o presidente tem morte impactante: crânio esmagado pela mão de Homelander após leitura telepática de Ashley. O abusivo close-up em câmera lenta enfatiza poder e impunidade do vilão no auge.
A direção trabalha contrastes: o Salão Oval, ícone de ordem, vira cenário de execução bárbara. Esse choque visual sustenta a crítica política que permeia o texto dos roteiristas.
Com Calhoun fora do caminho, o roteiro pavimenta a escalada autoritária de Homelander antes da derrota final, alinhando causa e consequência de forma clara.
Para quem deseja revisar cada passo que levou a esses destinos, vale conferir a linha do tempo da série, que detalha as conexões entre temporadas e personagens. Já a repercussão completa do episódio derradeiro está analisada no artigo sobre o final de The Boys explicado, ambos indispensáveis para fãs.
Com essas baixas, a 5ª temporada encerra The Boys de forma fiel ao espírito ácido que marcou a produção no Prime Video, confirmando o compromisso dos roteiristas com um desfecho sem concessões.

