Encerrar uma temporada de Saturday Night Live costuma reacender o debate sobre quem são os artistas capazes de comandar o estúdio 8H tanto nos monólogos quanto nas canções. A façanha, apelidada de “double duty”, exige rapidez de criação, fôlego para esquetes ao vivo e, claro, presença vocal à altura de um show de turnê.
Ao longo das décadas, apenas 50 convidados aceitaram essa maratona. Entre eles, dez nomes transformaram a noite de sábado em algo tão fluido que parecia fácil — deixando marcas permanentes na história do programa e servindo de referência para novas gerações de roteiristas e diretores do humor televisivo.
Quando a versatilidade vence o relógio apertado do SNL
Produzir um episódio de SNL em sete dias já é uma corrida contra o tempo. Para quem acumula as funções de anfitrião e atração musical, o cronograma vira uma quase missão impossível: ensaios com elenco, leituras de mesa com roteiristas e, paralelamente, passagem de som e coreografia. A seguir, revisitamos os dez artistas que não apenas cumpriram a missão, mas elevaram o padrão de performance no legendário palco da NBC.
Paul Simon (1976)
Já consagrado pela parceria com Art Garfunkel, Paul Simon levou ao programa um perfil mais intimista e mostrou sintonia fina com o diretor da época, Dave Wilson. No roteiro, os redatores integraram o músico a esquetes pontuais, priorizando seu timing contido em contraste com a energia caótica do elenco.
O momento mais comentado segue sendo a interpretação resignada de “Still Crazy After All These Years” vestido de peru — ideia que ilustrou como Simon topava rir de si mesmo. Mesmo aparecendo pouco em quadros, ele compensou entregando harmonia impecável ao dividir microfone com George Harrison.
Do ponto de vista de direção musical, a fusão de vozes em “Here Comes the Sun” e “Homeward Bound” mostrou que o programa também podia ser palco para arranjos delicados, influenciando escolhas de som ao vivo nas temporadas seguintes.
Dolly Parton (1989)
Dolly apareceu apenas uma vez, mas bastou para exibir domínio absoluto de plateia e câmera. A roteirista Rosie Shuster costurou piadas sobre a própria imagem da cantora, e Parton, longe de fugir, abraçou cada uma delas, inclusive no monólogo que satirizava os holofotes sobre seu corpo.
No sketch em que vive uma caixa de loja de conveniência capaz de alegrar qualquer freguês, a artista comprovou talento para construir personagens em segundos, arrancando risadas pela doçura exagerada. A direção de Hal Willner, responsável pela parte musical, explorou banjo e backing vocals ao vivo, reforçando o clima country-pop.
Com hits como “Why’d You Come In Here Lookin’ Like That” e “White Limozeen”, Dolly conduziu a plateia entre risos e refrões pegajosos, selando uma noite onde atuação cômica e potência vocal caminharam lado a lado.
Garth Brooks & Chris Gaines (1999)
Naquele ano, Garth Brooks decidiu experimentar alter ego: Chris Gaines. O roteiro assinava uma separação clara entre a personalidade country e a face pop — recursos que o diretor Beth McCarthy-Miller utilizou para brincar com iluminação e figurino, criando duas identidades no mesmo palco.
Brooks brilhou no quadro “Devil Can’t Write a Love Song”, duelo de interpretações com Will Ferrell. O timing de virada de piada mostrou que o cantor, mesmo novato em humor televisivo, entendia ritmo de cena.
Musicalmente, alternar entre o violão clássico e batidas mais modernas reforçou sua versatilidade. A escolha provou aos críticos que a persona Gaines não era apenas golpe de marketing, mas extensão artística consistente.
Justin Timberlake (2006)
Com direção de Don Roy King e roteiros afi ados por Seth Meyers, Timberlake selou sua entrada no seleto Five-Timers Club. O cantor-ator mergulhou em esquetes ambiciosas, como “Homelessville”, exibindo capacidade de improviso ao lado de veteranos.
A química com Andy Samberg resultou em “D–k in a Box”, sketch musical que venceu Emmy e redefiniu a participação de curtas digitais no programa. O texto satírico, combinado a uma melodia pop grudenta, virou case de integração perfeita entre música original e humor.
Na parte de show, hits “My Love” e “What Goes Around” ganharam coreografias reduzidas, adaptadas ao palco apertado, mostrando compreensão de espaço cênico sem perder impacto visual.
Taylor Swift (2009)
Recém-saída do episódio do VMA com Kanye West, Taylor fez da polêmica matéria-prima para o próprio monólogo, composto em forma de “Monologue Song”. A direção optou por cenografia enxuta, focando no carisma da artista.
Nos esquetes, Swift demonstrou timing surpreendente em “T.R.A.P.P.E.D.”, satirizando campanhas educativas, e no curta “Firelight”, paródia de Crepúsculo com fotografia propositalmente sombria. O roteiro brincava com sua imagem de jovem romântica, subvertendo expectativas.
No âmbito musical, a performance solo reforçou vocais limpos, enquanto cordas ao vivo deram tom folk-pop, reforçando a narrativa intimista cultivada na era “Fearless”.
Imagem: NBCUniversal
Miley Cyrus (2013)
Com a transição de ícone teen para pop provocadora, Miley utilizou o palco para comentar própria reinvenção. A equipe de roteiristas de Colin Jost criou esquetes centradas na repercussão de seu VMA, abrindo espaço para autocrítica.
Destaque para “We Did Stop”, paródia política que transformou “We Can’t Stop” em sátira ao shutdown do governo americano. A cantora demonstrou domínio corporal e vocal mesmo em coreografias reduzidas.
Nas canções “Wrecking Ball” e “We Can’t Stop”, iluminação quente e câmera próxima sublinharam a dramaticidade de cada verso, evidenciando a mão de Rhys Thomas na direção musical do episódio.
Donald Glover / Childish Gambino (2018)
Glover, ex-redator do programa 30 Rock, retornou ao estúdio com bagagem de ator, roteirista e rapper. O monólogo musical ironizou a audição fracassada para SNL anos antes, unindo confissão e humor.
Sketche como “Jurassic Park” mostraram sua habilidade de criar personagens absurdos sem perder naturalidade. Já em “Razz P. Berry”, Glover incorporou cantor de R&B traído, costurando falsete e exagero dramático que arrancou gargalhadas.
Como Childish Gambino, apresentou “This is America” em estreia mundial, usando coreografia efe-verve contra luz estroboscópica, transformando o palco num clipe ao vivo e antecipando debates culturais que ecoariam meses depois.
Halsey (2019)
Conhecida pela entrega visual em shows, Halsey surpreendeu a direção ao propor pintar um autorretrato enquanto cantava “Eastside”. O desafio foi aceito e virou um dos segmentos musicais mais ousados do SNL.
No sketch “Phone Call”, dividiu cena com Beck Bennett, demonstrando timing para silêncios incômodos e viradas cômicas de texto. Em “Virginia State Capitol”, a cantora sustentou humor político ácido com naturalidade rara para convidados novatos.
O resultado reforçou a confiança da produção em formatos híbridos, onde performance plástica e música se misturam, algo creditado à visão conjunta de Halsey e do diretor Don Roy King.
Bad Bunny (2023)
Poucos meses após o show no Super Bowl, Bad Bunny transformou o espanhol em língua dominante do estúdio 8H, exigindo adaptação dos roteiristas para piadas bilíngues. A aposta rendeu qu ebra de formato tradicional e atraiu público latino.
Em “Rap Battle”, o astro virou MC cordial, invertendo estereótipos agressivos do gênero. Já em “Telenovela”, contrastou dramatização exagerada típica de folhetins com humor meta, provando domínio absoluto de expressões faciais.
Musicalmente, arranjos ao vivo realçaram batidas de reggaeton e trap latino, consolidando a visão do artista de ampliar alcance cultural do SNL em paralelo ao sucesso de streaming.
Sabrina Carpenter (2025)
Fechando a seleção, Sabrina Carpenter assumiu o palco ainda no embalo do álbum “Man’s Best Friend”. A roteirista Alison Gates explorou seu histórico Disney, mas deu giro adulto ao colocá-la em situações de constrangimento social, como no quadro “Surprise”.
A artista mostrou vocais seguros em “Manchild” e “Nobody’s Son”, com coreografias leves que permitiam interação direta com a plateia. A direção favoreceu planos fechados para capturar nuances de interpretação e conexão emocional.
No estreante sketch “Snack Homiez”, sua química com o elenco provou que Carpenter transita com naturalidade entre humor físico e timing de sitcom, ampliando expectativa de convites futuros.
Esses dez nomes não apenas aceitaram o desafio de comandar o Saturday Night Live em dose dupla. Eles redefiniram a maneira como roteiro, atuação, direção e performance musical podem dialogar em um espaço de 90 minutos ao vivo, consolidando-se como referências obrigatórias para qualquer artista que sonhe em brilhar na mítica noite de sábado.

