Daredevil: Born Again voltou a dominar as conversas dos fãs depois da estreia do episódio 5 da segunda temporada. Exibido na última terça-feira no Disney+, o capítulo intitulado “Grand Design” foi rapidamente apontado como um dos momentos mais fortes não só da fase atual, mas de toda a trajetória live-action do herói.
- Por que “Grand Design” eleva o nível da série
- Charlie Cox: maturidade e vulnerabilidade em cena
- Vincent D’Onofrio: um Rei do Crime à beira do abismo
- Toby Leonard Moore retorna como Wesley e reacende a nostalgia
- O simbolismo de Vanessa: do quadro às ondas do mar
- Foggy Nelson, o antídoto moral de Matt
- A direção de Aaron Moorhead e Justin Benson
- Roteiristas acertam na costura entre MCU e era Netflix
- Impactos para os próximos episódios
Além de avançar a trama com reviravoltas dolorosas, o episódio destaca um elenco em desempenho máximo, direção inspirada e um roteiro que costura presente e passado com a precisão de quem conhece cada ponto cego de Hell’s Kitchen. A seguir, destrinchamos os elementos que fazem “Grand Design” merecer a atenção de quem aprecia boa televisão.
Por que “Grand Design” eleva o nível da série
O quinto capítulo chega como ponto de virada: mortes importantes, flashbacks decisivos e construções temáticas que ecoam até a terceira temporada produzida na era Netflix. Tudo isso é embalado por escolhas visuais agressivas dos diretores Aaron Moorhead e Justin Benson, dupla que já havia surpreendido em outras produções do estúdio.
Com roteiro assinado por Jesse Wigutow, Jill Blankenship e Thomas Wong, o episódio trabalha camadas de simbolismo – do quadro “Rabbit in a Snowstorm” aos sons de ondas no encerramento – enquanto aprofunda as motivações de herói e vilões. Confira abaixo como cada peça desse quebra-cabeça se encaixa.
Charlie Cox: maturidade e vulnerabilidade em cena
Mesmo veterano no papel, Charlie Cox apresenta nuances inéditas de Matt Murdock. O ator aposta em pequenos silêncios e olhares perdidos para mostrar o peso das escolhas recentes do advogado. A sequência em que Matt revê Foggy em um flashback, por exemplo, revela quão longe ele está disposto a ir para manter seu código moral – ponto reforçado quando decide salvar Bullseye em pleno caos.
A fisicalidade de Cox também chama atenção. Nas cenas de luta, a câmera valoriza a coreografia ao optar por planos mais longos e cortes mínimos, lembrando o famoso corredor da primeira temporada. A diferença agora é que o personagem parece carregar cada golpe, como se o passado inteiro lhe pesasse nos ombros.
Essa interpretação encontra eco direto no texto de “Grand Design”, que recorre à metáfora do “tapeceiro divino” citada no funeral do Padre Lantom na temporada 3: o herói finalmente enxerga a parte da frente do bordado e percebe consequências imprevisíveis.
Vincent D’Onofrio: um Rei do Crime à beira do abismo
Se Charlie Cox oferece o coração do episódio, Vincent D’Onofrio entrega sua fúria contida. A abertura na praia mostra Wilson Fisk aparentemente em paz, lembrando ao público a conversa da semana anterior em que admitiu odiar areia. O contraste entre esse momento quase sereno e a tragédia que virá reforça o desequilíbrio emocional do personagem.
D’Onofrio usa gestos mínimos – um toque nos punhos de camisa herdados do pai, um suspiro antes de olhar o mar – para antecipar o vulcão prestes a explodir. A perda mostrada no capítulo quebra sua última âncora de humanidade, prenunciando a escalada de violência que deve marcar o restante da temporada.
O diretor de fotografia enquadra Fisk sempre em planos mais baixos, aumentando a sensação de domínio físico, mas insere sombras fechadas ao redor do rosto para indicar o isolamento crescente. É um truque simples, porém eficaz, que ressalta a performance poderosa do ator.
Toby Leonard Moore retorna como Wesley e reacende a nostalgia
O flashback que traz de volta James Wesley, interpretado por Toby Leonard Moore, funciona como elo direto com o material da Netflix. Moore mantém a postura elegante e o tom subserviente característico, mas acrescenta uma pitada de urgência quando convence Fisk a investir em arte em vez de criptomoedas – decisão que levará ao primeiro encontro com Vanessa.
A interação entre Wesley e Buck Cashman, revelando como o capanga atual entrou para o império do Kingpin, amplia o peso dramático da narrativa. O recurso de voltar no tempo não soa gratuito; pelo contrário, aprofunda motivações e reforça o sentimento de perda de Fisk, ainda abalado pelo assassinato do fiel escudeiro na temporada inaugural.
Para os fãs de longa data, ver Wesley novamente é mais do que um aceno; é lembrar o ponto de ruptura que fez o Rei do Crime perder qualquer rédea moral. O roteiro sabe disso e utiliza o personagem como lembrança fantasmagórica da estabilidade que Fisk já teve.
O simbolismo de Vanessa: do quadro às ondas do mar
No centro das memórias de Fisk está Vanessa, cuja paixão pela arte conecta passado e presente. A cena em que ela decide exibir “Rabbit in a Snowstorm” mesmo contra orientações do chefe ressalta seu olhar comercial aguçado. Mais tarde, o mesmo quadro virar cartão de visita romântico entre ela e Wilson cria paralelos com o próprio tecido narrativo de “Grand Design”.
Os diretores reforçam essa simbologia ao encerrar o episódio com o som das ondas, remetendo à primeira e à última visualização da personagem na praia. A trilha contrasta o momento idílico inicial com o silêncio fúnebre do desfecho, tornando a tragédia ainda mais impactante.
Imagem: Internet
Embora a temporada anterior já mostrasse a influência de Vanessa sobre Fisk, o episódio 5 estabelece definitivamente que ela é o eixo de seu “grande plano”. Sem ela, o futuro do vilão – agora prefeito de Nova York – tende a mergulhar em escuridão completa.
Foggy Nelson, o antídoto moral de Matt
Outro destaque do episódio é a breve, porém decisiva, aparição de Foggy Nelson nos flashbacks. A sequência em que o personagem demonstra compaixão pelo lutador Lionel “The Lion” McCoy inspira Matt a inverter a ordem dos nomes da firma, passando de “Murdock & Nelson” para “Nelson & Murdock”.
Esse gesto, pequeno na superfície, ecoa no presente quando o Demolidor decide não abandonar Bullseye. Assim, o roteiro costura a ideia de misericórdia como herança direta de Foggy, reforçando a importância do amigo mesmo fora de quadro na linha temporal atual.
O retorno do humor leve – “mesmo os melhores abacates” – serve de descanso emocional antes dos momentos mais pesados e relembra a química que tornou a dupla querida desde a primeira temporada.
A direção de Aaron Moorhead e Justin Benson
Conhecidos por abordagens visuais experimentais, Moorhead e Benson aplicam aqui uma linguagem mais clássica, mas não menos expressiva. Os longos travellings pelas ruas de Hell’s Kitchen trazem sensação de urgência, enquanto os closes em objetos simbólicos, como os punhos de camisa do pai de Fisk, sublinham memórias traumáticas.
Um dos pontos altos técnicos é a montagem que intercala presente e passado sem confundir o espectador. A paleta quente dos flashbacks contrasta com tons frios do presente, guiando a compreensão temporal mesmo quando a narrativa vai e volta em ritmo acelerado.
Com o roteiro fornecendo diálogos parcimoniosos, a dupla aposta em imagens para contar boa parte da história, respeitando a máxima “mostrar, não contar”. O resultado é um capítulo tenso do início ao fim.
Roteiristas acertam na costura entre MCU e era Netflix
Jesse Wigutow, Jill Blankenship e Thomas Wong equilibram fan service e desenvolvimento de personagens. Referências como “Avocados at Law” e a menção à Night Nurse Claire Temple surgem naturalmente, sem interromper o fluxo dramático. Ao mesmo tempo, antigas peças do quebra-cabeça – como os famosos botões de punho de Fisk – ganham novo significado.
A decisão de batizar o episódio de “Grand Design” reforça o tema do “plano maior”, dialogando com o discurso de Matt no funeral do Padre Lantom na terceira temporada original. Assim, a equipe demonstra domínio da cronologia pregressa e do momento atual do MCU.
O roteiro ainda planta sementes para conflitos futuros: a ausência de Vanessa como bússola emocional de Fisk promete elevar a violência do prefeito contra vigilantes, preparando terreno para o arco final da temporada.
Impactos para os próximos episódios
Com três capítulos restantes, a série caminha para uma escalada de tensão. A transformação de Wilson Fisk em figura possivelmente mais brutal do que nunca ameaça as ruas de Nova York, enquanto Matt, ainda ressentido, tenta manter a própria fé em um sistema que insiste em falhar.
Se “Grand Design” servir de termômetro, os espectadores podem esperar confrontos mais físicos, debates morais intensos e, talvez, a aparição de rostos familiares, como a enfermeira Claire Temple, citada nominalmente pelo Demolidor. Até lá, o que se tem é um episódio exemplar que comprova a capacidade da Marvel Studios de combinar nostalgia e renovação num único soco – ou numa tacada de bengala.

