The Boys entrou em sua quinta temporada dobrando a aposta no caos super-heroico: além de colocar Homelander no Salão Oval, o roteiro apresenta um pacote de estreantes nada discretos. São sete novos Supes que mexem na dinâmica de poder e oferecem momentos dignos da sátira ácida que consagrou a série.
Do sermão hipnótico de Oh-Father à cabeça extra de Ashley, cada personagem carrega escolhas ousadas de direção e entrega espaço para o elenco brilhar — mesmo quando a cena dura poucos segundos. A seguir, analisamos quem é quem, como cada ator / atriz encara o papel e de que forma o showrunner Eric Kripke lapida essas entradas no roteiro.
A quinta temporada amplia o universo — e o elenco — de The Boys
A estratégia de Kripke para manter a narrativa fresca passa por introduzir figuras que espelham (ou ridicularizam) arquétipos clássicos dos quadrinhos. Essa decisão exige dos intérpretes um equilíbrio delicado: soar verossímil dentro do absurdo. Nos dois primeiros episódios, a direção alterna close-ups dramáticos e cortes rápidos, sublinhando tanto os efeitos práticos quanto a comicidade grotesca dos poderes.
Veja, a seguir, a lista completa dos novos Supes, com foco em performance, roteiro e detalhes que podem ganhar peso nos próximos capítulos.
Oh-Father
A estreia de Oh-Father, novo marido de Ashley, transforma o púlpito em arma política. O ator (nome ainda não creditado oficialmente) abraça o estereótipo de televangelista com carisma calculado, usando tons de voz que oscilam entre ternura e ameaça. A direção de fotografia reforça isso, iluminando o personagem como se estivesse em um altar, realçando o poder de sua fala sônica capaz de influenciar multidões.
Dramaturgicamente, Kripke utiliza Oh-Father para satirizar o casamento entre religião e poder estatal. A cena do velório forjado de A-Train mostra o alcance de suas habilidades: o discurso embala a plateia como um coral, sem precisar de efeitos visuais exagerados, só a interpretação hipnótica do ator.
Embora os episódios iniciais mostrem apenas a voz sônica, a construção sugere camadas ainda não exploradas. O roteiro reserva mistério ao manter suas demais habilidades em off, criando expectativa para conflitos futuros com Billy Butcher.
Ashley
Colby Minifie finalmente troca os bastidores da Vought por uma cadeira de poder — e, agora, um frasco de Compound V. A atriz entrega uma Ashley vice-presidente frenética, mas visivelmente mais segura, graças ao dom de ler mentes. Minifie dosa sarcasmo e vulnerabilidade, sobretudo quando a personagem lida com repórteres, antecipando perguntas antes mesmo de serem feitas.
A direção faz questão de enquadrar o close na nuca de Ashley para revelar o plot twist mais bizarro da temporada: uma segunda face, viva e tagarela, crescendo atrás da cabeça. O efeito prático remete ao horror corporal, enquanto o roteiro brinca com a hipótese de que o “cérebro extra” amplie sua telepatia.
Além do choque visual, a dupla cabeça serve de metáfora para a personalidade dividida da executiva. Por ora, Kripke mantém a função exata desse apêndice em suspense, mas o detalhe reforça o surrealismo característico da série, como visto em outras deformações causadas pelo V composto.
Sheline
Integrante do grupo Teenage Kix, Sheline surge como paródia felina de heroínas clássicas. A atriz — em atuação repleta de trejeitos felinos — trabalha a fisicalidade: ataques com garras afiadas, reflexos sobre-humanos e até um cômico “bolinho de pelo” arremessado durante confronto com Kimiko. A coreografia aposta em movimentos ágeis de parkour, reforçando a ambientação de rua da equipe.
O figurino em couro cintilante e lentes de contato ovais ressaltam o paralelo estético com certas anti-heroínas da cultura pop, enquanto o roteiro faz piada direta com a fetichização desses arquétipos. A direção mantém câmeras baixas, valorizando saltos e rasantes que evidenciam a agilidade superfelina.
Por ora, Sheline não ganha tempo de tela suficiente para explorar conflitos internos, mas a aparição dela já provoca curiosidade sobre o código moral desse sub-time, algo que pode colidir com a disciplina militar de Homelander.
Jetstreak
Líder informal do Teenage Kix, Jetstreak ostenta voo e força ampliada, nada tão chamativo quanto lasers oculares, mas suficiente para render cenas aéreas competentes. A direção utiliza planos abertos e CGI discreto para mostrar seu deslocamento no céu, evitando o excesso de filtros que poderiam destoar do tom mais cru da série.
O intérprete traz ares de “capitão escoteiro”, contrastando com a moral dúbia dos demais heróis. Ainda assim, o roteiro subverte o arquétipo ao matar o personagem em segundos via vírus anti-Supe — choque que reforça a letalidade da arma e dá peso às cenas de Butcher.
A partida abrupta de Jetstreak também funciona como comentário meta: nem todo herói com capa e sorriso sobrevive no universo de The Boys, reforçando a imprevisibilidade que a produção cultiva desde o piloto.
Imagem: Internet
Rock Hard
Entre os estreantes, Rock Hard rouba a cena com um poder digno do humor negro da série: pele rochosa, força colossal e a excentricidade de expelir lava após atos sexuais. O ator equilibra brutalidade e comicidade, principalmente em trocas de olhares com Frenchie que destacam o desconforto geral do grupo.
A fotografia usa luzes quentes para refletir na textura pétrea do figurino, reforçando a noção de invulnerabilidade. A função narrativa é clara: Butcher precisa de um alvo “inquebrável” para testar a eficácia do vírus que pode derrubar Homelander.
As camadas cômicas não diminuem o perigo representado por Rock Hard. O roteiro sugere que seu corpo diferenciado permite resistência prolongada, inclusive à falta de oxigênio — detalhe que pode importar em futuras missões de infiltração.
Countess Crow
Countess Crow ganha destaque não só pelos poderes, mas pela bússola moral rara entre Supes. A atriz entrega doçura contida, mesmo ao comandar bandos de corvos por telepatia. A escolha de filmar a personagem fazendo tutorial de maquiagem antes do ataque cria contraste simbólico entre vaidade e empatia.
Na cena com Mother’s Milk, o roteiro oferece pausa de humanidade: ela admite cumprir ordens da Vought sem convicção, fato que convence MM a poupar sua vida. A decisão indica que Kripke pode resgatar a personagem mais adiante, talvez cruzando o caminho de Starlight.
Visualmente, a produção investe em efeitos práticos de aves reais combinados a CGI sutil, evitando que o poder pareça excessivamente fantasioso. Isso mantém o realismo sujo que marca a série e destaca a performance emocional da atriz.
Worm
Último da lista, Worm representa o humor escatológico elevado à décima potência. Contratado por Butcher para escavar túneis, o personagem literalmente engole terra e a expele pelo ânus, criando um rastro subterrâneo. O ator abraça a bizarrice, gesticulando expressões de choque e orgulho a cada “propulsão”.
A cena curta, porém memorável, reforça a disposição da série em zombar dos clichês super-heróicos e exibir poderes patéticos ao lado de habilidades devastadoras. A equipe de som merece crédito: ruídos grotescos acompanham cada jato de solo, intensificando o tom de paródia.
Apesar de não haver indícios de que Worm volte, a função narrativa dele foi abrir caminho para o resgate de MM, Frenchie e Hughie. Isso garante ao personagem um espaço digno na galeria de Supes excêntricos.
Impacto no arco geral e o que pode vir a seguir
Com esses sete novos rostos, The Boys expande o tabuleiro político e moral da trama, fornecendo peças que podem ser usadas por Homelander ou pelos rebeldes. A série mantém a tradição de mesclar sátira, violência e comentário social, usando cada estreia para testar limites visuais e narrativos.
A pergunta que fica é: quantos desses Supes sobreviverão até o final da temporada? A julgar pela rapidez com que o vírus anti-Supe já mostrou serviço, a taxa de mortalidade pode subir. Enquanto isso, personagens como Ashley, com seus novos poderes telepáticos, prometem reviravoltas dentro da própria Casa Branca.
Se Kripke seguir o padrão das temporadas anteriores, veremos alianças improváveis, traições e, claro, mais comentários mordazes sobre a cultura pop e o autoritarismo. Para quem gosta de mergulhar em bastidores, vale conferir o histórico de adaptações de quadrinhos na TV e observar como The Boys subverte o gênero.
Por ora, resta acompanhar de perto as atuações do elenco recém-chegado e descobrir qual deles vai conquistar — ou aterrorizar — o público até o episódio final.

