Vestidos slip, shorts com barra de renda e transparências voltaram a disputar espaço nas ruas e passarelas. O ponto em comum? Todos conversam com o chamado universo boudoir, inspiração direta na lingerie que deixa de ser roupa de baixo para assumir o protagonismo das produções.
- O que move o retorno do boudoir
- Saint Laurent: o glamour subvertido de Anthony Vaccarello
- Chloé: romance setentista pelas mãos de Chemena Kamali
- Diotima: artesanato caribenho encontra o slip dress
- Khaite: femme fatale contemporânea em paleta escura
- Carolina Herrera: sensualidade ladylike no centro do palco
- Street style: figurino da vida real
- Como adotar a tendência sem perder o conforto
- Conclusão sem spoilers
Com direção criativa ousada e leituras muito distintas, grifes de peso reinterpretam a estética íntima e mostram que há espaço para romantismo, glamour e até pegada femme fatale dentro da mesma tendência. Confira, a seguir, como cada casa de moda constrói seu “roteiro” particular nesse cenário.
O que move o retorno do boudoir
A consolidação do loungewear durante a pandemia abriu caminho para peças confortáveis dominarem o guarda-roupa. Na retomada das agendas presenciais, o conforto ganhou acabamento sofisticado: rendas, cetim e shapes típicos do quarto migraram para o street style.
Esse movimento, somado ao desejo contemporâneo por looks versáteis que passeiam do dia à noite, impulsionou a estética boudoir e colocou designers, “diretores” desse verdadeiro espetáculo fashion, no centro da discussão.
Saint Laurent: o glamour subvertido de Anthony Vaccarello
Sob o comando de Anthony Vaccarello, a Saint Laurent aposta em leitura dramática do boudoir. O “roteiro” do estilista privilegia a atmosfera luxuosa: vestidos de renda escura, brincos maxi e alfaiataria oversized compõem um elenco que exala sensualidade sem perder a sofisticação.
Enquanto muitas grifes flertam com o conforto, Vaccarello prioriza a suntuosidade. Shorts de renda aparecem combinados a jaquetas esportivas, formando um contraste que virou espécie de uniforme fashion do primeiro semestre. O resultado é uma performance que valoriza o vamp chic e confirma a assinatura do diretor criativo.
Ao substituir o tradicional recato das peças íntimas por estilização ousada, a maison faz do desfile um palco onde a lingerie é protagonista – e não mero coadjuvante.
Chloé: romance setentista pelas mãos de Chemena Kamali
Na Chloé, Chemena Kamali conduz a narrativa por trilha mais nostálgica. Tons pastel e referências setentistas se misturam ao retorno dos bloomers, calças fofas que flertam com o vintage. O filtro retrô confere frescor e leveza à estética íntima, criando um figurino romântico e despreocupado.
Kamali trabalha a dualidade entre inocência e atitude cool. Os bloomers, por exemplo, surgem em conjuntos de tecido leve que poderiam facilmente compor um look de época, mas ganham modernidade com acessórios robustos. É como assistir a um filme antigo em resolução 4K: a essência permanece, mas a execução é absolutamente atual.
O styling reforça a versatilidade do boudoir: do confortável ao requintado, cada peça se adapta ao enredo do dia a dia sem perder apelo fashion.
Diotima: artesanato caribenho encontra o slip dress
No desfile da Diotima, o slip dress ganha releitura artesanal. Detalhes feitos à mão entram em cena por cima de calças amplas, oferecendo camada extra de textura e movimento. A proposta foge do óbvio ao posicionar a camisola como sobreposição, subvertendo a ordem tradicional das peças.
Essa escolha de “figurino” destaca o diálogo entre herança cultural caribenha – marca registrada da grife – e a tendência global do boudoir. O resultado é um visual que preserva o conforto, mas adiciona pitadas de complexidade artesanal, transformando a passarela em vitrine multicultural.
Com essa costura cuidadosa, a etiqueta comprova que a estética íntima pode – e deve – conversar com técnicas de slow fashion, ampliando o repertório narrativo da tendência.
Khaite: femme fatale contemporânea em paleta escura
A Khaite apresenta leitura adulta e sedutora. Transparências em preto e branco, além de sutiãs assumidos como tops, criam visual femme fatale que contrasta com a doçura associada ao boudoir clássico.
Imagem: Internet
Catherine Holstein, fundadora e diretora criativa, conduz a trama com cortes estruturados e camadas precisas. Ao apostar em cartela sóbria, a grife reforça ideia de poder – algo que muitos espectadores esperam de uma protagonista moderna.
Entre “cenas” marcadas por vestidos ajustados em renda encorpada e beleza propositalmente messy, a marca comprova que o boudoir pode abraçar personagens complexos, longe do estereótipo delicado.
Carolina Herrera: sensualidade ladylike no centro do palco
Sob a direção de Wes Gordon, Carolina Herrera leva o boudoir ao universo ladylike. Sutiãs usados como top, em paleta vibrante, surgem combinados a saias amplas. O contraste reforça a sensualidade sem abandonar a elegância sob medida que define a casa.
A cartela de cores expandida injeta energia juvenil na silhueta clássica. É como se a marca pegasse um roteiro conhecido – a alfaiataria feminina impecável – e adicionasse novo plot twist: a lingerie à mostra. O resultado agrada tanto fãs de dramas de época quanto aficionados por blockbusters contemporâneos.
O desfile também reforça tendência que já se espalha pelas ruas: sutiã como top, coordenado a terceira peça aberta. A grife legitima o truque de styling ao levá-lo ao red carpet fashion.
Street style: figurino da vida real
Fora das passarelas, o boudoir encontra cenário perfeito em dias de calor extremo. Sutiãs coloridos ou neutros aparecem sob camisas abertas, enquanto vestidos tipo nightie ganham a cidade ao lado de sapatilhas e meias-calças, combinação que equilibra delicadeza e praticidade.
Peças como regatas camisola dos anos 90 voltam a acompanhar jeans largos, revivendo vibe minimalista que dominou a virada do milênio. Já as calças bloomer mostram potencial para se tornarem queridinhas do verão brasileiro, sobretudo quando usadas em conjuntos românticos ou contrastadas por acessórios pesados.
Mesmo quem prefere atitude menos doce encontra caminho: basta inserir couro ou tricô oversized para tensionar a composição. Dessa forma, o figurino de rua comprova que o boudoir é mais roteiro aberto do que script fechado.
Como adotar a tendência sem perder o conforto
Para quem busca entrada gradual no universo, especialistas recomendam começar com truques de styling simples: deixar alguns botões da camisa abertos para exibir renda discreta ou sobrepor top de lingerie a malha canelada.
Já os vestidos de tule pedem lingerie de renda estrategicamente escolhida, dica que eleva o glamour de ocasiões noturnas. O acréscimo de plumas ou pelúcia, por sua vez, remete ao burlesco e garante efeito cênico imediato.
E, claro, o contraste masculino-feminino segue carta na manga certeira. Combinar camisa oversized a shorts de renda ou camisola longa cria equilíbrio visual e mantém o conforto tão valorizado desde o boom do loungewear na pandemia.
Conclusão sem spoilers
Da passarela ao asfalto, o boudoir se prova narrativa multifacetada capaz de acomodar romance setentista, glamour noturno e minimalismo noventista no mesmo ato. Designers – verdadeiros diretores dessa tendência – encontram na lingerie o elemento dramático perfeito para contar novas histórias de moda, enquanto o público adapta o script ao seu próprio guarda-roupa.

