Rever “Angel” 27 anos depois expõe decisões criativas que ainda incomodam

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Reassistir a “Angel” em 2024 é uma viagem no tempo que realça o talento do elenco e, ao mesmo tempo, escancara pontos frágeis do roteiro. A série no IPTV derivada de “Buffy” nasceu em 1999, apresentou tons mais sombrios e conquistou espaço próprio, mas algumas escolhas narrativas resistem mal ao teste dos anos.

Com direção de Joss Whedon e David Greenwalt no piloto e roteiristas rotativos ao longo das cinco temporadas, “Angel” alterna picos de criatividade e tropeços estruturais. A seguir, analisamos como atuações, diretrizes de direção e decisões de sala de roteiro moldaram essas nove realidades duras para quem aperta o play hoje.

Entre atuações poderosas e falhas de roteiro: o balanço ao rever “Angel”

Os itens abaixo revisitam momentos-chave, avaliando interpretação de elenco, mão dos diretores e soluções narrativas que ainda causam discussão. Cada tópico mostra como performances sólidas nem sempre compensaram escolhas criativas questionáveis, mas preservaram o carisma da produção.

1. Ritmo incerto da primeira temporada

A estreia de 1999 teve direção alternada entre James A. Contner e Michael Lange, mas o texto insistia no formato “monstro da semana”. David Boreanaz, recém-saído de Sunnydale, segurava a câmera com seu olhar soturno, mas faltava ao roteiro um arco maior para sustentar seu talento dramático.

Charisma Carpenter, ainda buscando entrosamento como Cordelia fora do ambiente colegial de “Buffy”, oscilava entre o cômico e o drama sem diretriz clara dos showrunners. A ausência de uma identidade de gênero – policial, terror ou comédia sobrenatural – deixou o elenco à deriva.

Só na reta final, com episódios dirigidos por David Greenwalt, a temporada ganhou cadência. A entrada de J. August Richards (Gunn) trouxe energia de rua que iluminou cenas de ação e deu nova textura ao tom noir pretendido pelos produtores.

2. Romance desconfortável entre Cordelia e Connor

Na quarta temporada, o roteiro de Jeffrey Bell decidiu aproximar Cordelia – possuída por entidade maligna – e Connor, interpretado por Vincent Kartheiser. A química inexistente gerou estranhamento imediato, apesar do esforço de ambos em cenas de intimidade.

Carpenter se entregou ao papel, alternando doçura e sombra, mas a direção de Skip Schoolnik não evitou que o resultado soasse forçado. Kartheiser, recém-chegado, exibia intensidade crua que destoava do histórico de Cordelia, e o arco acabou ofuscando conflitos centrais.

A gravidez acelerada e o parto de uma entidade superior criaram curvas tão bruscas que nem a sólida fotografia noturna de Rodney Charters conseguiu suavizar. Até hoje o público questiona a pertinência dramática da escolha.

3. Desperdício narrativo de Faith

Eliza Dushku brilhou em participações especiais, sobretudo no episódio “Five by Five”, dirigido por David Semel. Sua entrega física, olhar agressivo e vulnerabilidade nas cenas de redenção mostravam química rara com Boreanaz.

Mesmo assim, a roteirista Mere Smith não conseguiu encaixá-la em arcos permanentes. A prisão voluntária da personagem serviu para dar verossimilhança, mas limitou o potencial de uma caçadora que espelhava o próprio dilema de Angel.

Ao revê-la, fica evidente que a energia punk de Dushku poderia ter revitalizado a série, principalmente na temporada final, quando Spike disputava espaço dramático. Foi uma oportunidade desperdiçada de explorar ainda mais a dualidade redenção/queda.

4. Presenças pontuais de Buffy que deixaram gosto de quero mais

Sarah Michelle Gellar retornou em “I Will Remember You”, sob direção sensível de Scott Brazil, oferecendo um dos momentos mais emocionantes da TV dos anos 2000. A química entre Gellar e Boreanaz dispensava diálogos.

No entanto, a escolha dos roteiristas de apagar a lembrança de Buffy sugou o peso dramático conquistado. Após essa participação, a Caçadora só voltou em rápidas menções, deixando brecha narrativa sentida até o season finale.

Uma aparição no quinto ano, especialmente após a entrada de Spike, teria elevado o conflito. A ausência reforça impressão de que agendas externas ditaram mais que a lógica interna da trama.

5. Saída abrupta de Cordelia

Cordelia percorreu arco de heroína relutante a entidade quase divina, mas a despedida no episódio “You’re Welcome”, escrito por David Fury, pegou fãs de surpresa. Carpenter entrega uma performance agridoce, revisitando trejeitos cômicos e maturidade conquistada.

Entretanto, a decisão de matá-la fora de cena logo após um beijo em Angel soou anticlimática. A direção de Fury manteve o ritmo emotivo, mas o roteiro não ofereceu tempo para luto de personagens nem do público.

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Imagem: Internet

Considerando a importância de Cordelia desde “Buffy”, o corte brusco evidencia como pressões de bastidor interferem em narrativa. Foi um final que não honrou a evolução da personagem.

6. Morte de Fred e ascensão de Illyria

Amy Acker conquistou corações como Winnifred Burkle, mesclando ingenuidade e genialidade científica. No episódio “A Hole in the World”, dirigido por Joss Whedon, sua transformação em Illyria traz uma das sequências mais dolorosas da série.

A atriz brilha ao alternar a voz doce de Fred para o tom grave e distante da divindade ancestral. A mudança prova o alcance de Acker, mas o roteiro sacrifica uma favorita dos fãs em troca de nova dinâmica de poder.

A presença de Illyria enriquece efeitos especiais e oferece desafio moral a Wesley (Alexis Denisof), porém deixa sensação de que a perda de Fred foi alto preço dramático. A cena em que ele segura o corpo vazio da amada ainda impacta revendo hoje.

7. Pouco espaço para Angelus

Quando a alma de Angel some, David Boreanaz se diverte ao viver Angelus. O ator amplia expressões faciais, solta ironias e impõe ameaça constante, criando contraste bem-vindo com o herói taciturno.

Apesar do impacto, a quarta temporada foi a última a explorar o vilão interno. Diretores preferiram voltar à versão atormentada do protagonista, limitando a dose de humor negro que Angelus proporcionava.

Revisitando a série, percebe-se que mais episódios com o alter-ego demoníaco teriam renovado tensão, sem comprometer a jornada de redenção do personagem.

8. Profecia Shanshu sem resolução

Desde a primeira temporada, roteiristas plantaram a profecia Shanshu: o vampiro com alma que conquistasse a redenção se tornaria humano. A disputa velada com Spike, já possuidor de alma, prometia reviravoltas.

James Marsters trouxe carisma irreverente, servindo de contraponto perfeito ao estoicismo de Boreanaz. As cenas de embate verbal, dirigidas por Skip Schoolnik, eram explosivas e divertidas.

No entanto, o cancelamento da série impediu resposta definitiva. A falta de clímax para a profecia fragiliza um fio condutor mencionado por cinco anos, frustrando quem revê a produção em busca de fechamento.

9. Final aberto e a batalha que nunca vimos

“Not Fade Away”, dirigido por Jeffrey Bell, encerra a série com plano-sequência marcante: chuva torrencial, demônios surgindo e Angel proclamando “Let’s go to work”. O corte para preto mantém a essência da luta eterna pela redenção.

A ousadia agrada parte da crítica, mas frustra espectadores que esperavam destino claro para Gunn, Spike e Illyria. A ausência de uma sexta temporada impediu que roteiristas colhessem sementes plantadas ao longo do quinto ano.

Ainda assim, a cena final resume o espírito noir que Greenwalt buscava desde o início: heróis fadados a combater o mal mesmo quando a vitória parece inalcançável.

Rever “Angel” hoje destaca atuações intensas, momentos de direção afiada e roteiros capazes de emocionar, mas também lembra como decisões abruptas podem comprometer o legado de uma série cult. Mesmo com falhas, a produção segue relevante ao explorar redenção, lealdade e sacrifício numa Los Angeles repleta de sombras.

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Sou redator especializado em conteúdo de beleza, moda e crochê. Produzo conteúdos desde 2021, tendo experiência como colunista em sites de referência.