Mesmo idolatrada por fãs e crítica, Buffy the Vampire Slayer passou por escorregões que quase minaram seu legado. Quando a direção não conversa com o roteiro ou a atuação fica refém de decisões questionáveis, o resultado costuma ser um capítulo que o público prefere esquecer.
- Quando Buffy saiu dos trilhos
- “Teacher’s Pet” — o professor que ninguém quer ter
- “Go Fish” — monstros de borracha e cultura do estupro
- “Dead Man’s Party” — família desfeita em pleno retorno
- “Beer Bad” — a caverna moralizante
- “Where the Wild Things Are” — orgasmo assombrado
- “Into the Woods” — adeus sem emoção
- “Wrecked” — vício mágico sem sutileza
- “As You Were” — visita que ninguém pediu
- “Seeing Red” — o limite do suportável
- “Empty Places” — motim na sala de estar
A seguir, revisitamos dez episódios que balançaram a recepção da série, avaliando como elenco, roteiristas e diretores lidaram (ou não) com temas sensíveis, efeitos visuais limitados e escolhas narrativas polêmicas.
Quando Buffy saiu dos trilhos
Cada item da lista destaca um episódio específico, sempre observando performances, opções de câmera e diálogos que escaparam do padrão de excelência estabelecido por Joss Whedon e sua sala de roteiristas. Veja — ou relembre — como essas passagens quase afastaram de vez a audiência.
“Teacher’s Pet” — o professor que ninguém quer ter
Logo no quarto capítulo da primeira temporada, Nicholas Brendon precisa sustentar a trama praticamente sozinho. Embora o ator demonstre carisma habitual, o roteiro de David Greenwalt exagera na comédia pastelão ao tratar de grooming, diluindo qualquer tensão. A direção de Bruce Seth Green, limitada pelo orçamento, entrega um monstro de borracha que não assusta nem no escuro.
Sarah Michelle Gellar surge pouco em cena, mas mantém presença forte sempre que aparece. Pena que a narrativa enfraquece sua protagonista ao girar em torno da suposta “ingenuidade” de Xander. O resultado é um episódio que envelheceu mal, por mais que o elenco tente salvar as linhas de diálogo.
No fim, o que sustenta “Teacher’s Pet” é a química consolidada entre o trio principal. Sem isso, a história da mantis disfarçada de professora teria ficado ainda mais indigesta.
“Go Fish” — monstros de borracha e cultura do estupro
Já na segunda temporada, “Go Fish” coloca Allyson Hannigan e Sarah Michelle Gellar em situações de vítima que soam incômodas. A crítica à cultura do estupro existe, mas o texto de David Fury e Elin Hampton não consegue equilibrar denúncia social e diversão teen.
A maquiagem dos “nadadores mutantes” lembra filmes B dos anos 80, minando qualquer medo genuíno. David Semel, na direção, tenta compensar com planos fechados e trilha alta, mas o efeito é contrário: o terror vira paródia involuntária.
Pelo menos, o episódio serve como vitrine para Gellar reforçar Buffy’s postura firme diante de culpabilização da vítima, ainda que o roteiro tropece na sutileza.
“Dead Man’s Party” — família desfeita em pleno retorno
O reencontro de Buffy com a mãe e os amigos tinha tudo para emocionar. Porém, Marti Noxon escreve diálogos recheados de rancor que soam fora de tom. Nicholas Brendon e Alyson Hannigan carregam expressões duras que destoam da empatia construída em duas temporadas.
O diretor James Whitmore Jr. opta por planos que colocam os personagens em cantos opostos do quadro, simbolizando a distância emocional — ideia conceitual interessante, mas que, junto ao texto ríspido, transforma a festa em um show de acusações que o público não comprou.
Mesmo com performances intensas, sobretudo de Kristine Sutherland como Joyce, a falta de catarse verdadeira faz este episódio parecer um grande mal-entendido nunca resolvido.
“Beer Bad” — a caverna moralizante
No campus universitário, Buffy vira “cavewoman” após beber cerveja enfeitiçada. O conceito soa promissor, e Sarah Michelle Gellar diverte ao brincar com gestos primitivos. Contudo, Jane Espenson assina um roteiro que se converte em panfleto anti-bebida, perdendo a veia anárquica que move a série.
David Solomon, na direção, abraça o tom de sitcom em vez de horror. Planos abertos e luzes quentes criam atmosfera de sitcom universitária, esvaziando o impacto da metáfora sobre uso de substâncias.
Embora o episódio garanta algumas risadas, a mensagem martelada faz “Beer Bad” destoar do DNA libertário de Buffy.
“Where the Wild Things Are” — orgasmo assombrado
Marc Blucas nunca foi unanimidade como Riley, mas aqui o personagem e Buffy passam quase todo o episódio trancados, enquanto a casa fraternidade explode em assombrações ligadas ao sexo. O roteiro de Tracey Forbes sugere moral conservadora, contradizendo anos de abordagem feminista.
O diretor David Solomon tenta compensar com recursos visuais — vinhas se contorcendo, paredes gemendo — porém o simbolismo óbvio transforma o clímax em piada fácil. Gellar entrega vulnerabilidade, mas o subtexto puritano prejudica a personagem.
No fim, a moral “sexo desencadeia punição” soa antiquada e ofusca tanto a química do casal quanto o debate que a série havia iniciado sobre liberdade sexual.
Imagem: Internet
“Into the Woods” — adeus sem emoção
Quando Riley decide sair de Sunnydale, Marc Blucas ganha chance de mostrar camadas do militar apaixonado. Infelizmente, o roteiro de Marti Noxon culpa Buffy pela crise, jogando responsabilidade emocional exclusivamente na heroína.
Douglas Petrie dirige cenas de ruptura com planos estáticos, talvez para reforçar distanciamento, mas a falta de ritmo tira peso dramático. Sarah Michelle Gellar entrega dor contida, enquanto James Marsters adiciona veneno cínico como Spike, revelando o segredo de Riley.
Mesmo com atuações sólidas, a despedida soa anticlimática: a narrativa nunca justifica por que deveríamos lamentar a partida do soldado.
“Wrecked” — vício mágico sem sutileza
Alyson Hannigan costuma dominar o palco, mas o roteiro de Drew Z. Greenberg a coloca numa espiral de dependência mágica que surge sem transição. A metáfora para drogas pesadas é interessante, porém a pressa tira profundidade.
O diretor David Solomon usa luzes estroboscópicas e ruídos distorcidos para ilustrar a “viagem”, recurso que funciona visualmente, embora sublinhe demais o ponto. A química entre Hannigan e Amber Benson se mantém tocante, mas o episódio sacrifica nuances para chegar logo à penitência.
O resultado é um salto narrativo que, em vez de chocar, confunde e antecipa o tom sombrio que dominaria a reta final da série.
“As You Were” — visita que ninguém pediu
Um ano depois de partir, Riley volta casado, pronto para exibir felicidade. O roteiro de Douglas Petrie transforma a visita em desfile de constrangimentos. Marc Blucas tenta dar charme ao ex-soldado, mas o texto o pinta como símbolo do que Buffy não tem.
David Solomon dirige cenas de combate contra um demônio-ovo que parece saído de um game de 16 bits. A mistura de melodrama e ação cartoon cria ruído tonal. Sarah Michelle Gellar transmite cansaço palpável, como se Buffy e público compartilhassem o sentimento de “pra quê?”.
No saldo, o episódio existe mais para reforçar a depressão da protagonista do que para acrescentar algo à mitologia.
“Seeing Red” — o limite do suportável
A soma de agressão sexual e morte chocante faz de “Seeing Red” o ponto mais controverso da série. James Marsters entrega performance crua, beirando o insuportável, enquanto Sarah Michelle Gellar exibe pânico genuíno. A direção de Michael Gershman mantém câmera trêmula, intensificando desconforto.
Logo depois, Tara (Amber Benson) morre em cena silenciosa que reforça o clichê “bury your gays”. Hannigan executa luto visceral, mas o roteiro de Steven DeKnight redireciona o foco para Spike e sua busca por redenção, minimizando o trauma de Buffy.
A violência gráfica e escolhas de roteiro provocaram debates acalorados sobre limites narrativos e representação queer, ofuscando qualquer mérito técnico do episódio.
“Empty Places” — motim na sala de estar
Pouco antes da reta final, Drew Goddard escreve um motim que expulsa Buffy de casa. Eliza Dushku brilha como Faith, mas o texto torna a Scooby Gang mesquinha sem construção prévia. Kristine Sutherland, ausente, deixa Joyce fora da discussão, agravando o sentimento de traição.
O diretor James A. Contner aposta em closes que capturam decepção nos olhos de Gellar, criando momento de dor legítima. Ainda assim, o público sente que a rebelião surge mais como artifício dramático do que evolução orgânica.
Felizmente, os episódios seguintes recuperam a coesão, mas “Empty Places” quase quebrou a confiança na família construída ao longo de sete temporadas.
No balanço geral, Buffy sobreviveu a esses tropeços graças ao comprometimento do elenco e à habilidade de retomar fôlego criativo logo depois de cada deslize. Se algum desses capítulos quase fez você largar a série, lembre-se de que, tal qual a heroína, Buffy sempre encontra um jeito de se reerguer.

