Supernatural construiu um legado de 15 temporadas, 327 capítulos e uma legião de fãs fiéis. Ainda assim, nem todos os episódios atravessaram bem as mudanças culturais dos últimos anos. Problemas envolvendo consentimento, estereótipos e roteiros pouco sensíveis ficaram mais evidentes com o tempo.
- Quando a série derrapa: oito casos emblemáticos
- “Bugs” (temporada 1, episódio 8)
- “Route 666” (temporada 1, episódio 13)
- “Man’s Best Friend with Benefits” (temporada 8, episódio 15)
- “All Dogs Go to Heaven” (temporada 6, episódio 8)
- “The One You’ve Been Waiting For” (temporada 12, episódio 5)
- “It’s Time for a Wedding!” (temporada 7, episódio 8)
- “Dark Dynasty” (temporada 10, episódio 21)
- “Swap Meat” (temporada 5, episódio 12)
Nesta lista, revisitamos oito capítulos que hoje soam datados ou desconfortáveis, avaliando como os roteiristas conduziram cada trama, o desempenho de Jared Padalecki, Jensen Ackles e do elenco convidado, além das decisões de direção que contribuíram (ou não) para o resultado final.
Quando a série derrapa: oito casos emblemáticos
Cada item abaixo relembra um episódio específico, contextualiza a trama e faz uma rápida radiografia artística: atuações, escolhas de roteiro, ritmo e a assinatura dos diretores responsáveis. São histórias que, vistas sob o olhar de 2024, expõem fragilidades que Supernatural preferiria enterrar no porta-malas do Chevy Impala.
“Bugs” (temporada 1, episódio 8)
O roteiro de Rachel Nave e Bill Coakley apresenta Dean (Jensen Ackles) e Sam (Jared Padalecki) lidando com uma maldição indígena que invoca enxames de insetos. Hoje, a premissa recorre a um clichê problemático: o “indígena vingativo”. A direção de Kim Manners tenta compensar com suspense, mas o CGI datado mina a tensão.
Padalecki transmite bem a empatia de Sam ao dialogar com o jovem entusiasta de insetos, enquanto Ackles entrega o carisma habitual. Porém, a falta de nuance no texto reduz a cultura nativa a mero dispositivo de terror, algo que o próprio elenco não consegue salvar.
“Route 666” (temporada 1, episódio 13)
Escrito por Eugenie Ross-Leming e Brad Buckner, o capítulo traz um caminhão “possuído” que persegue vítimas negras. A tentativa de discutir racismo perde força diante de um enredo que transforma preconceito em elemento sobrenatural simplista. A direção de Paul Shapiro mantém ritmo ágil, mas não evita o tom deslocado.
Jensen Ackles ganha espaço para explorar o lado romântico de Dean ao reencontrar Cassie (Tina Athena), oferecendo química convincente. Ainda assim, o texto plana na superfície do tema e, segundo o próprio criador Eric Kripke, virou um de seus arrependimentos.
“Man’s Best Friend with Benefits” (temporada 8, episódio 15)
Brad Buckner e Eugenie Ross-Leming voltam a assinar um roteiro polêmico: um bruxo mantém relacionamento amoroso com sua “familiar”, que alterna forma de cão e mulher. A premissa levanta questões de consentimento e sexualização racial que não recebem tratamento adequado pela direção de John Showalter.
Os protagonistas exibem o costumeiro timing cômico, mas o desconforto do público supera qualquer leveza. A participação de Danielle Nicolet, presa a um papel estereotipado, reforça a sensação de oportunidade perdida.
“All Dogs Go to Heaven” (temporada 6, episódio 8)
Nesse roteiro de Adam Glass, um skinwalker (Andrew Rothenberg) assume forma canina para espionar uma família. A direção de Phil Sgriccia enfatiza a tensão doméstica, mas a insinuação de voyeurismo beira o incômodo. Jared Padalecki conduz bem a empatia de Sam, mas o subtexto de bestialidade paira sobre cada cena.
O episódio também deveria avançar o arco dos “Alphas”, porém o foco desvia para a relação perturbadora entre criatura e vítima. O resultado é uma história que envelheceu mal por ignorar limites éticos claros.
Imagem: Internet
“The One You’ve Been Waiting For” (temporada 12, episódio 5)
Eric Charmelo e Nicole Snyder tentam transformar nazistas em vilões cômicos, revivendo Hitler por alguns minutos. A direção de Nina Lopez-Corrado opta por tom leve, com Jared Padalecki e Jensen Ackles reagindo de forma quase cartunesca ao ditador dançante. O humor, porém, banaliza a gravidade histórica.
Os atores convidados esforçam-se para manter a ameaça crível, mas a escolha de satirizar o terror nazista soa desconexa, prejudicando a imersão. É um caso em que nem a química dos protagonistas resgata o roteiro.
“It’s Time for a Wedding!” (temporada 7, episódio 8)
O texto de Rebecca Dessertine e Eric Charmelo coloca Becky (Emily Perkins) usando poção do amor para casar à força com Sam. A direção de Tim Andrew investe em tom cômico, mas esbarra na ausência de consentimento. Padalecki entrega boas expressões de “sam-zumbi”, enquanto Ackles assume o alívio cômico — sem apagar a premissa problemática.
Mesmo que o episódio queira humanizar Becky ao mostrar inseguranças, a mensagem final normaliza métodos abusivos. Hoje, a recepção seria ainda mais crítica.
“Dark Dynasty” (temporada 10, episódio 21)
Robbie Thompson assina o roteiro que marca a despedida de Charlie (Felicia Day). Dirigido por Robert Singer, o capítulo acelera a trama dos Stynes e sacrifica a única personagem LGBTQ+ recorrente. As atuações de Day, Padalecki e Ackles carregam emoção genuína, mas a decisão narrativa reforça a fama da série de eliminar figuras femininas para motivar os protagonistas.
O choque da morte eclipsa qualquer mérito técnico, gerando forte reação negativa dos fãs. A ausência de retorno da personagem só evidenciou a desigualdade de tratamento dentro do universo da série.
“Swap Meat” (temporada 5, episódio 12)
Julie Siege escreve a comédia de troca de corpos entre Sam e o adolescente Gary (Colton James). A direção de Robert Singer extrai graça das situações escolares, mas ignora a violação de privacidade que ocorre quando Gary, no corpo de Sam, faz sexo. Padalecki diverte ao interpretar um jovem inseguro, e Ackles mantém a dinâmica fraterna, porém o subtexto de consentimento falha.
O desequilíbrio entre humor adolescente e implicações éticas faz o capítulo perder espaço na maratona de fãs. Reassistir hoje é lembrar o quão tênue pode ser a linha entre piada e problematização.
Supernatural permaneceu querida graças ao carisma de sua dupla principal e ao controle de tom exercido por diretores experientes. Entretanto, estes oito capítulos mostram que, mesmo em séries longevas, algumas escolhas criativas não resistem ao olhar crítico de novos tempos.









