Encerrada com oito episódios, a primeira temporada de Spider-Noir colocou Nicolas Cage em um palco sombrio para revisitar Ben Reilly, agora batizado apenas de “The Spider”. A produção do Prime Video trouxe figuras conhecidas dos quadrinhos, mas concluiu a maioria de seus arcos, abrindo espaço para uma nova leva de adversários.
Com Megawatt e Silvermane mortos e tramas fechadas para Sandman, Black Cat e Tombstone, o roteiro de Oren Uziel e companhia terá de buscar rostos inexplorados caso o streaming renove a atração. A base está pronta: a explicação genética dos poderes permite encaixar quase qualquer vilão aracnídeo nos anos 1930.
Quem pode assumir a função de ameaça principal?
Se o foco continuar na mistura entre crime organizado e horror corporal, existem diversas opções nos quadrinhos que se ajustam ao filtro noir da direção. Abaixo, listamos seis nomes que, dentro desse recorte, entregariam drama, visual marcante e conflitos íntimos capazes de desafiar tanto o herói quanto o público.
Lagarto
O Dr. Curt Connors já ganhou versões em live-action, mas nenhuma tão propensa ao terror quanto a que caberia em Spider-Noir. A premissa da série — soldados transformados por experimentos com DNA animal durante a Primeira Guerra — encaixa o personagem sem esforço, dispensando longas exposições.
Visualmente, o monstro reptiliano dialoga com a fotografia granada e contrastada que o diretor de fotografia utilizou no primeiro ano. O uso de sombras pesadas poderia esconder e revelar sua forma de maneira gradual, potencializando o suspense ao estilo de clássicos expressionistas.
Nicolas Cage, que adotou maneirismos contidos para reforçar o cansaço existencial de Reilly, encontraria em Connors um espelho trágico. Ao contrapor dois homens dilacerados por experimentos, o roteiro reforçaria temas de perda de humanidade, ponto forte do trabalho de Cage e dos showrunners.
White Dragon
Em meio ao vácuo de poder deixado pela queda de Silvermane, a Chinatown dos anos 1930 surge como palco natural para White Dragon e sua gangue, os Dragon Lords. O figurino orientalista — máscara que cospe fogo e armadura cerimonial — oferece ao design de produção oportunidade de mesclar realismo sujo com toques pulp.
Para a narrativa policial que marcou a temporada inicial, o personagem traria conflito territorial e debates sobre imigração, temas latentes no período. Sua habilidade de intimidar com número e tecnologia rudimentar casaria bem com sequências de ação coreografadas em becos estreitos e ruas abarrotadas.
A direção, que já equilibrou humor seco e violência gráfica, pode usar White Dragon como contraponto exótico ao crime italiano mostrado até aqui, garantindo diversidade visual e dramática sem trair o clima noir.
Gibbon
Martin Blank é um mutante de força sobre-humana com traços de primata, eternamente ridicularizado. Seu arco trágico se encaixa na estética fatalista do gênero: personagens que buscam redenção, mas descem ladeira abaixo. A fotografia pode explorar planos fechados para acentuar a solidão do vilão, fazendo eco às escolhas visuais já empregadas nos monólogos internos de Ben.
Na atuação, seria essencial um intérprete que transmita doçura e selvageria em frações de segundo, algo que lembraria o trabalho de Andy Serkis em performances de captura de movimento. A química com Cage abriria espaço para diálogos melancólicos, elevando o episódio para além de pancadaria.
O roteiro poderia repetir a dinâmica de manipulação vista nos quadrinhos, com outro antagonista usando Gibbon como peão, reforçando a crítica social sobre marginalização de “diferentes” — assunto pertinente à Nova York da Depressão.
Imagem: Internet
Cabeça-de-Martelo (Hammerhead)
Amnésia, implante metálico no crânio e obsessão por filmes de gângsteres tornam Hammerhead praticamente nascido para o universo de Spider-Noir. Sua persona inspirada em Edward G. Robinson combina com diálogos rápidos e sotaques caricatos já homenageados pela série.
Como novo chefão do submundo, ele preencheria o espaço de antagonista recorrente que Silvermane deixou. Sua presença contínua permitiria aos roteiristas desenvolver arcos longos, algo que faltou a alguns vilões de temporada 1.
Nicolas Cage, famoso por homenagear ícones do cinema de época, encontraria terreno fértil para duelos verbais recheados de referências a clássicos de Hollywood, mantendo o tom metalinguístico que a série abraçou.
Mosca Humana (Human Fly)
Richard Deacon funde DNA de mosca ao próprio corpo e perde parte da humanidade, dilema que ecoa o de Ben Reilly. A maquiagem prática — asas translúcidas, olhos compostos — permitiria efeitos práticos no estilo terror B, dialogando com o horror corporal que a série flerta.
O conflito interno de Deacon oferece material dramático para um episódio mais intimista, no qual Cage possa explorar empatia e repulsa simultaneamente. O roteiro também pode usá-lo para questionar limites éticos da ciência, reforçando a crítica já insinuada nos experimentos alemães.
A direção, ao alternar planos subjetivos e close-ups distorcidos, ressaltaria a visão multifacetada da mosca, entregando ao espectador uma experiência sensorial que difere das lutas mais tradicionais vistas até aqui.
Executores (Enforcers)
Trio formado por Fancy Dan, Ox e Montana, os Executores atuam como capangas de aluguel. Sua ausência de poderes grandiosos encaixa a proposta de ação pé-no-chão que marcou confrontos anteriores. Cada um possui um “gimmick” claro, facilitando coreografias diferenciadas.
A entrada do grupo pode ocorrer quando Ben ou Robbie Robertson se aproximarem demais de um segredo criminoso, justificando cenas de perseguição e interrogatório que homenageiem thrillers dos anos 1940. A pluralidade de estilos de combate enriqueceria o ritmo visual da temporada.
Do ponto de vista de roteiro, os Executores servem como termômetro da ascensão de um novo chefão: se cabeças diferentes contratam o trio, o espectador entende quem realmente puxa as cordas, ampliando a intriga sem exibir o vilão principal cedo demais.
Com esses seis nomes na mesa, Spider-Noir tem material de sobra para empurrar Ben Reilly a dilemas morais ainda mais densos, mantendo a atmosfera de crime e tragédia que conquistou o público no primeiro ano.

