“The Boys” encerrou a quinta temporada consolidando-se como uma das adaptações mais radicais dos quadrinhos recentes. A trama criada por Eric Kripke usa o ponto de partida imaginado por Garth Ennis, mas entrega personagens reconstruídos por atuações marcantes que justificam cada divergência em relação às HQs.
Nesta análise, revisitamos as maiores alterações observadas no seriado e mostramos como o trabalho de atores, direção e roteiristas sustenta essas decisões. Sem juízo de valor além dos fatos, o foco recai sobre performance, escolhas narrativas e impacto dramático.
A força das performances na adaptação
Kripke, ao lado dos roteiristas Rebecca Sonnenshine e Craig Rosenberg, optou por suprimir a superforça do grupo logo de início, ampliando o senso de perigo. Para que o público acreditasse nessa ameaça, o elenco precisou ancorar cada mudança em nuances emocionais — tarefa que, segundo a crítica especializada, foi cumprida com êxito ao longo de cinco anos.
A seguir, detalhamos como cinco personagens-chave exemplificam essa abordagem.
Billy Butcher – Karl Urban
Karl Urban assume Butcher com um sotaque cockney carregado e uma fisicalidade que substitui o poder do composto V apresentado nos quadrinhos. A ausência de super-habilidades obriga o ator a transmitir violência contida: o olhar semicerrado e o meio-sorriso irônico viram assinatura do personagem.
Os roteiristas reforçam essa composição ao inserir diálogos curtos e explosões repentinas, permitindo que Urban explore camadas de culpa ligadas à sobrevivência de Becca na série. Essa mudança não existe na HQ, onde a morte da esposa acontece fora de cena. Na TV, a permanência de Becca até a 2ª temporada fornece motivação extra para o intérprete.
Dirigido por nomes como Frederick E.O. Toy e Sarah Boyd, Urban ajusta a raiva de episódio para episódio, evitando que o anti-herói vire caricatura. A crítica nota que, graças a essa condução, o personagem permanece assustador mesmo sem poderes, atendendo à lógica realista imposta pela sala de roteiristas.
Hughie Campbell – Jack Quaid
No papel que começou desenhado para Simon Pegg nos quadrinhos, Jack Quaid entrega vulnerabilidade juvenil contrastando com a violência gráfica do show. O ator abraça o arco prolongado de perdão a A-Train, algo inexistente nas HQs, e faz da retração corporal seu principal recurso.
Quando Hughie se arrisca com o Temp-V, Quaid altera tom de voz e postura, sinalizando o conflito moral causado pelo uso de superpoderes temporários. A direção de fotografia reforça essa transição com close-ups trêmulos, destacando suor e pupilas dilatadas para fazer o público sentir o efeito tóxico da substância.
O resultado é um protagonismo dividido: Quaid sustenta o ponto de vista humano da história enquanto Urban puxa a narrativa sombria. Juntos, evidenciam a diferença fundamental em relação às HQs, onde todos do grupo já começam turbinados pelo V.
Homelander – Antony Starr
Antony Starr transforma Homelander em estudo sobre narcisismo e poder absoluto. Sem paralelo direto na HQ a partir da 3ª temporada, o ator intensifica tiques faciais e microexpressões, criando tensão em cenas estáticas — recurso elogiado pela Variety como “terror de close”.
Imagem: Internet
Roteiristas apostam em diálogos que oscilam entre a falsa cordialidade e o surto homicida, permitindo que Starr mostre mudanças de humor em questão de segundos. A construção encontra coro na trilha de Christopher Lennertz, que diminui o volume antes dos rompantes, potencializando o desconforto.
A presença de Ryan, inexistente por mais de um quadro na HQ, amplia o trabalho de Starr. O ator alterna ameaças veladas e momentos paternalistas, usando voz suavizada sempre que a criança aparece. Esse contraste torna crível o clímax do quinto ano, quando pai e filho se enfrentam frente às câmeras de todo o mundo.
Starlight – Erin Moriarty
Erin Moriarty faz de Annie January a bússola moral do seriado, qualidade que só aflora no quadrinho após sua entrada nos Boys. Na adaptação, a atriz já demonstra desconforto no primeiro teste de traje graças a expressões de constrangimento e respirações curtas.
A decisão de transferir o abuso para mãos de The Deep, e não de todo o trio masculino como nas HQs, concentra conflito em um único antagonista visível. Isso permite que Moriarty expanda o arco de revelação pública sem perder a vulnerabilidade inicial.
Ao longo das temporadas, a atriz reduz gradativamente o tom de voz e adota postura ereta, sinalizando o empoderamento de Annie até a adoção do codinome Luz-Estrela em definitivo. A mudança funciona, segundo críticos, porque a direção de atores manteve coerência interna, valorizando pequenos gestos em vez de grandes discursos.
Kimiko – Karen Fukuhara
Karen Fukuhara recebe uma personagem praticamente muda e a converte em presença cênica constante. A alteração do nome — de “The Female” para Kimiko — já indica interesse em individualização, reforçada pela trajetória de ex-criança-soldado que não existe no material original.
Fukuhara trabalha com olhar, respiração e coreografias de luta que lembram cinema de ação asiático. Sob coordenação de Dan Trachtenberg em episódios-chave, cada golpe ganha peso emocional, ligando violência e trauma. Quando Kimiko finalmente fala na 5ª temporada, o ato tem força de clímax pessoal.
Outro destaque é a química com Frenchie. O roteiro dilui o romance tardio das HQs em interações progressivas, oferecendo à atriz cenas de ternura silenciosa. A evolução convence o público de que Kimiko é mais que arma viva, consolidando a decisão do showrunner de dar arco completo à personagem — algo que críticos apontam como uma das maiores conquistas da série.
“The Boys” confirma que alterações drásticas em relação ao impresso podem funcionar quando ancoradas em atuações sólidas e direção coesa. A combinação garante frescor narrativo e mantém a base de fãs discutindo cada episódio, enquanto o universo se expande em spin-offs como Gen V sem perder a identidade satírica.

