Com o anúncio dos indicados ao Emmy 2026 marcado para 8 de julho, cresce a expectativa sobre quais atrações da TV aberta conseguirão furar o bloqueio das produções de streaming e cabo premium.
Mesmo sob menor holofote, algumas séries e programas de ABC, CBS e NBC entregaram atuações, roteiros e decisões de direção que justificam, sem favor, a estatueta. A seguir, analisamos oito casos que chegam fortes à temporada de premiações.
Produções que podem surpreender nos votos da Academia
Da versatilidade de Kaitlin Olson em um procedural que vai além da fórmula, ao espetáculo de dublês de Chicago Fire, cada título abaixo reúne qualidades que merecem mais do que uma lembrança na cerimônia de setembro. Confira os destaques.
High Potential — ABC
Kaitlin Olson, tradicionalmente associada à comédia de It’s Always Sunny in Philadelphia, assumiu em 2024 o papel de Morgan, mãe solo de QI altíssimo que auxilia a polícia de Los Angeles a solucionar crimes. A atriz transita com segurança entre humor e drama, provando ter estofo para liderar uma série procedimental sem cair na repetição.
O diferencial de High Potential está justamente na performance de Olson: sem seu timing preciso, a atração correria o risco de se tornar apenas mais um caso-da-semana. A intérprete converte a inteligência excêntrica da protagonista em empatia, segurando o espectador enquanto o roteiro amarra pistas e reviravoltas.
A direção da série explora closes e planos-sequência que ressaltam as deduções rápidas de Morgan, mantendo ritmo ágil ao lado de Daniel Sunjata e do restante do elenco. Após o final da segunda temporada, a produção desponta como forte candidata em categorias de atuação.
Ghosts — CBS
Na quinta temporada, o desafio de Ghosts era evitar o desgaste do conceito dos fantasmas presos à mansão. Utkarsh Ambudkar, no entanto, manteve o frescor ao viver Jay, o “homem comum” que não enxerga os espíritos. Seu trabalho como contraponto cômico evitou a fadiga da premissa e, segundo a crítica, mostrou a maior evolução de personagem da série.
Ambudkar navega entre a incredulidade e a cumplicidade com Rose McIver (Sam) em cenas que mesclam humor físico e timing verbal. Embora tecnicamente protagonista, o ator poderia disputar a estatueta como coadjuvante, onde a concorrência conta com nomes de peso como Martin Short e Steve Carell.
Roteiristas e diretores apostaram em situações mais constrangedoras nesta fase, mas o intérprete manteve Jay como elemento de equilíbrio, garantindo gargalhadas sem exageros. Mesmo com poucas indicações anteriores, Ghosts faz por merecer mais espaço no Emmy.
Elsbeth — CBS
O terceiro ano de Elsbeth mudou de categoria e passou a concorrer como comédia. Entre seus episódios, “Murder Six Across” se destacou graças à participação especial de Steve Buscemi. O veterano interpretou Simon, fã obsessivo de palavras-cruzadas que estrangula o editor com o cordão de uma mochila de náilon — crime absurdo que a série transforma em humor.
Buscemi, conhecido por papéis intensos em Boardwalk Empire, diverte ao contrastar a leveza de Carrie Preston. A direção investe em enquadramentos que sublinham o olhar frenético do ator, entregando um vilão memorável em apenas um capítulo.
Celebridades que apresentam Saturday Night Live costumam vencer como Ator Convidado em Comédia. Esse histórico favorece Buscemi, que agrega fama e entrega artística num episódio já disponível no Paramount+.
Jimmy Kimmel Live! — ABC
Após suspensão polêmica em 2025, Jimmy Kimmel Live! voltou ao ar sob intensa expectativa. Kimmel encarou o retorno de forma emotiva, equilibrando pedido de desculpas e piadas, o que rendeu elogios à sua habilidade de conduzir o próprio escândalo sem perder a veia cômica.
O talk-show, que soma mais de duas décadas no ar, exibiu abertura sólida, entrevistas afiadas e produção alinhada, comprovando fôlego mesmo diante da despedida de Stephen Colbert na concorrência direta. A equipe de roteiristas adequou o tom, garantindo que o programa retomasse audiência com naturalidade.
A categoria de Talk Series deverá ver The Late Show favorito, mas a forma como Kimmel geriu a crise coloca seu retorno entre os momentos televisivos do ano — e justifica uma indicação ao Emmy.
Imagem: MovieStillsDB
Chicago Fire — NBC
Em seu 14º ano, Chicago Fire mostrou porque é referência em cenas de ação na TV aberta. As gravações em locações reais de Chicago e o uso predominante de efeitos práticos sustentam sequências que rivalizam com grandes produções de cinema. Taylor Kinney e Miranda Rae Mayo, por exemplo, executam parte de suas próprias manobras, aumentando a verossimilhança.
O episódio final da temporada — com incêndio de grande escala que ameaça vários personagens — concentrou o melhor trabalho de dublês da série. As tomadas longas e a iluminação de chamas reais destacam direção ambiciosa dentro das limitações da grade semanal.
Apesar de quase 300 capítulos no currículo, a atração segue ignorada na categoria de Coordenação de Dublês. Ex-showrunner Derek Haas já classificou as recorrentes esnobadas como “loucas”, reforçando a sensação de que a produção está mais do que pronta para ser reconhecida.
Stumble — NBC
A comédia Stumble, em formato de falso documentário sobre cheerleading universitário, foi cancelada após única temporada, mas deixou legado de elenco afiado. O trio conhecido — Jenn Lyon, Taran Killam e Kristin Chenoweth — dividiu cena com jovens atores em início de carreira, cujo entrosamento se tornou alma do projeto.
O departamento de casting acertou ao equilibrar veteranos e novatos, permitindo que piadas visuais e trocadilhos funcionassem sem prejudicar o ritmo. Essa escolha ganhou atenção da crítica, que apontou a série como candidata natural a Melhor Elenco em Comédia.
Mesmo fora do ar, a temporada única permanece disponível e mostra que escalação certeira pode ser decisiva para sustentar humor de situação. O Emmy de Casting seria reconhecimento merecido para a curta, porém eficiente trajetória.
Matlock — CBS
Skye P. Marshall emergiu como força imprescindível no revival de Matlock. Sua Olympia Lawrence ganhou camadas dramáticas na segunda temporada, ofuscando até mesmo alguns momentos da protagonista vivida por Kathy Bates, já indicada na estreia da série.
A química entre Marshall e Bates sustenta o coração emocional da produção. Enquanto roteiros desenvolvem casos jurídicos, a direção reserva espaço para diálogos íntimos que evidenciam a dinâmica mentora-aprendiz, explorando nuances que vão além do tribunal.
Com terceira temporada prevista só para 2027, Marshall tem menos episódios no currículo, mas entregou profundidade suficiente para figurar na disputa de Atriz Coadjuvante ou até mesmo Atriz Principal em Drama.
Crossover One Chicago — NBC
O megacrossover que reuniu Chicago Fire, Chicago P.D. e Chicago Med em 2026 elevou a franquia a patamar cinematográfico. A produção usou um avião real no enredo e trouxe de volta rostos queridos, como Tracy Spiridakos e Jesse Lee Soffer, conquistando audiência e elogios à logística.
Diretores de cada série sincronizaram roteiros e cronogramas, filmando três episódios interligados sem prejudicar a rotina das temporadas individuais. A coesão narrativa transformou o evento em filme épico — embora as regras da Academia impeçam a inscrição como Telefilme.
Se houvesse categoria para “Agendamento Excepcional”, o trio de episódios seria favorito. Mesmo sem essa possibilidade, o crossover comprova a força criativa da marca One Chicago e merece, no mínimo, atenção especial dos votantes em 2026.
Com essas oito produções, a TV aberta demonstra que ainda sabe entregar qualidade digna de prêmio, mesmo competindo com orçamentos milionários do streaming. Resta aguardar se os votantes do Emmy reconhecerão o mérito que estas séries e programas exibiram ao longo da temporada.

